Captulo 1
Desenvolvimento emocional
Wagner Rocha Fiori 
1.1 Desenvolvimento emocional do escolar 
1.1.1 A criana em idade escolar 
O perodo compreendido entre os 6-7 anos e o advento da puberdade constituem uma etapa caracterstica do 
desenvolvimento humano, que tem merecido diferentes denominaes de acordo com o enfoque no qual  
estudada. A denominao mais abrangente a designa como perodo escolar, por coincidir com os anos bsicos 
do ensino elementar, ou seja,  a partir dos 6 ou 7 anos de idade que a criana se inicia no mundo das letras, 
introduzindo-se progressiva e formalmente nesta dimenso da cultura humana. Ao nvel das principais 
correntes da Psicologia, este perodo  sempre caracterstico, seja qual for o enfoque que lhe  dado. Para a 
teoria piagetiana, preocupada com a organizao do pensamento e a construo do real, esta etapa marca o 
ingresso no pensamento operatrio concreto, com seus desdobramentos nas vrias aquisies operatrias de 
conservao, incluso de classes e seriao. Para a teoria psicanaltica, preocupada com o progressivo 
desenvolvimento das relaes objetais, isto , com o desenvolvimento emocional, este  o perodo em que, 
reprimidos pela transposio do complexo de dipo, os instintos sexuais permanecem dormentes, emprestando 
sua energia ao pensamento e  socializao, at que a puberdade os solicite para a organizao genital. Os 
estudos americanos sobre desenvolvimento e socializao freqentemente se referem a este momento como o 
perodo da gang, estudando-o a partir das organizaes sociais externas que comeam a surgir em oposio s 
familiares. 
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J 
O desenvolvimento intelectual e social deste perodo  suportado pela primeira grande etapa de prontido 
plena do esquema corporal. O desenho da figura humana comea a assumir formas mais ou menos definitivas, 
braos e pernas j surgem sistematicamente em duas dimenses, o corpo  subdividido em tronco e abdmen, 
os membros j se localizam em posio correta, embora as articulaes, notadamente das pernas, ainda no 
estejam adequadas nas etapas iniciais. A cabea ainda  grande, mas j apresenta razovel proporcionalidade 
com o corpo, e traz tambm sistematicamente a presena de seus elementos fundamentais. Na maturao 
neuromotora, as sincinesias desaparecem progressivamente e o movimento segmentar  liberado at a plena 
aquisio da motricidade fina. Quando num exame psicomotor se solicita  criana que apresente um 
desempenho de motricidade fina, como por exemplo dedilhar sucessivamente o polegar contra a polpa dos 
outros dedos, mantendo erguida a mo que efetua o movimento e deixando pendente a outra, verifica-se que 
aos 6 anos ainda  normal a criana apresentar movimentos parasitas de imitao com a mo pendente, que 
acompanham os movimentos da mo que est atuando. Estas sincinesias de imitao, indicativas de que a 
segmentao do movimento fino e a liberao da atuao independente homolateral ainda no se encontram 
prontas, comeam a desaparecer por volta desta etapa. Aos 7 anos as sincinesias sero suaves, aos 8, 
praticamente imperceptveis na maioria das crianas, indicando a prontido do processo de segmentao 
neuromuscular. O progressivo controle prxico do corpo  um dado fundamental, ao nvel da maturao 
biolgica, para que a criana se instrumente na progressiva sada de casa para a socializao e as conquistas 
externas. A dominncia lateral j est normalmente estabilizada aos 6 anos, mas a transposio para o outro e 
para terceiros s ser atingida por volta dos 8 anos. Esta definio de referenciais do espao no prprio corpo 
e sua posterior transposio para fora estruturaro as relaes espaotemporais e a reversibilidade. Todas estas 
aquisies so fundamentais para o aprendizado da leitura e para o domnio operatrio da construo do real. 
Com o domnio da segmentao, da lateralidade e das relaes espao-temporais, o esquema corporal vai-se 
aperfeioando progressivamente at que, entre os 10 e 12 anos, possa estender-se em prxis perfeitas nas 
relaes com o mundo. 
A entrada para a escola e a aquisio da leitura a inscreve no mundo da transmisso formal dos 
conhecimentos e pensamentos. Sai da proteo parental direta e das aquisies estruturadas em planos 
ldicos, para as realizaes sociais exteriores e cobranas objetivas de realizao. Necessita cumprir tarefas, 
cumprir horrios, integrar 
modelos de relaes sociais, enfim, cobram-se-lhes as etapas iniciais de nossa ideologia de cultura e de 
realizao. A escola lhe ser um ponto de mltiplas cobranas e realizaes. Uma nova figura, vinda de fora, 
complementa ou at substitui os pais na implantao dos modelos de lei e de realizaes. A competio contra 
as tarefas e contra os colegas  efetuada com uma proteo apenas relativa. Se seu desenvolvimento fsico, 
psicomotor, intelectual e afetivo  normal, estar apto para as batalhas. Se atrasado ou perturbado. o mundo 
das letras ser impenetrvel fonte de frustraes, estar frgil para os embates sociais e, freqentemente, s 
lhe restar o retorno a um infantilismo emocional, agravado pelas cobranas que no poder atender. 
1.1.2 O perodo de latncia 
O perodo de desenvolvimento correspondente ao escolar  designado pela psicanlise como perodo de 
latncia. As etapas anteriores e a etapa posterior a este perodo foram designadas como fases de 
desenvolvimento (fases oral, anal, flica e genital), e dentro do conceito de fase entende-se a existncia de 
uma zona ergena dominante, dando modalidades especficas de fantasia, de relao e de defesas. A 
designao perodo de latncia especifica exatamente um momento intermedirio entre as etapas infantis de 
organizao da libido e a etapa adulta caracterizada pela fase genital. Neste momento, no h a formao de 
novas modalidades de relaes objetais, ou seja, no temos a organizao de estruturas afetivas novas nesta 
etapa, mas temos sim os efeitos decorrentes da represso da sexualidade infantil, promovida pelo 
encerramento do dipo, e que traz como conseqncias uma diminuio das fantasias e atividades sexuais. Ao 
especificar o processo, o Vocabulrio de Psicanlise de Laplanche e Pontalis define que um sentimento de 
ternura nas relaes substitui o impulso anteriormente sexual, O aparecimento do pudor e das aspiraes 
morais e estticas est ainda correlatado  superao do dipo. 
Durante as etapas anteriores de desenvolvimento, a fantasia infantil estava sempre centralizada em uma 
dimenso ertica ou libidinal especfica, a qual servia de fonte energtica, ou seja, de impulsos para que as 
correspondentes conquistas cognitivas e afetivosociais se realizassem. Por exemplo, vimos como o 
progressivo conhecimento e enamoramento pela me era dependente do prazer oral, como as conquistas 
corporais e sociais do segundo e terceiro anos estavam correlatadas s vivncias das fantasias anais, como a 
elaborao de papis e da lei, em fantasias, estava modelada pela evoluo 
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A 
do dipo. Com a soluo da fase flica, as modalidades bsicas de relacionamento afetivo se encontram 
elaboradas. A fase genital posterior apenas as retomar e as transferir da fantasia para a realidade. O perodo 
de latncia, intermedirio entre estas fases, ter por finaJidade exatamente preparar o desenvolvimento do 
indivduo no mundo da realidade, de forma que, com o despertar da genitalidade adolescente, as fantasias 
encontrem um sujeito apto a realiz-las adequadamente no mundo. A sexualidade tem ento que ceder terreno 
a impulsos mais dirigidos para a resoluo do mundo externo. A soluo do complexo de dipo est, 
portanto, na base da transduo que tornar o impulso orignariamente sexual em impulsos voltados para o 
desenvolvimento do pensamento e da socializao. A sublimao  o mecanismo de defesa por excelncia 
desta etapa. O impulso sexual e o instinto epistemoflico foram progressivamente se dissociando at o final da 
fase flica, e a represso macia que se desencadeia com o tabu do incesto pode cair apenas sobre a 
sexualidade, preservando intacta a busca do conhecimento. Conhecer no est mais correlatado a uma busca 
imediata de prazer. Desvinculado da sexualidade estrita, o conhecimento pode organizar seus modelos de 
realizaes prticas, suas aspiraes ticas e estticas. E se a represso cai sobre a sexualidade, no atinge a 
energia que a impulsiona, pois ela est pronta para ser canalizada para o instinto epistemolgico. Estamos 
pensando na evoluo normal. Da mesma forma que no h o desenvolvimento de novas relaes objetais na 
latncia, tambm no h a formao de novos quadros patolgicos. Podemos encontrar na latncia apenas o 
agravamento ou o aparecimento de sintomas ligados s falhas das etapas anteriores. Por exemplo, estudamos 
no volume anterior desta coleo como, por uma evoluo emocional inadequada, o instinto epistemoflico e a 
sexualidade podem permanecer indissociados. Nestes casos, ou a represso se dar sobre os dois ou os 
liberar juntos, tornando o pensamento erotizado. No primeiro caso, a conseqncia geral ser uma 
pseudodebilidade, um temor de buscar o conhecimento que surgir sob a aparncia de uma incapacidade real 
para conhecer. Ora, dificilmente os pais sistematizam cobranas formais de conhecimentos antes que os filhos 
atinjam o perodo escolar.  na entrada para a escola que se far a prova. A criana que j apresentava uma 
defasagem, sem que isto fosse percebido, demonstrar ostensivamente sua incapacidade para aprender. O 
sintoma surge na latncia, porque no sofreu cobrana anterior nem foi diagnosticado; mas o problema  
anterior. Da mesma forma, o pensamento escolar erotizado formar um gnio em relaes impessoais, como a 
matemtica, o xadrez, e isto por si s bastar afetivamente  criana, que no buscar os companheiros, se 
isolar 
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progressivamente, at o agravamento final do quadro, em geral Coincidente com a adolescncia. 
1.1.3 As primeiras relaes sociais definidas 
O perodo de latncia marca as primeiras sadas reais para o grupo social fora de casa. Os jogos do perodo anterior j 
caracterizavam um contato com outras crianas ou adultos, mas, de um lado, dentro das regras parentais, e de outro, 
permeados por uma intatiJidade causada tanto pela fantasia dominando a realidade, quanto pela proteo externa sempre 
vigilante. Nas etapas anteriores sempre houve um engajamento progressivo com as outras crianas, mas jamais chegaram 
a constituir um grupo com regras prprias. Havia companheiros de brinquedos, mas um tomando o outro muito mais 
como um brinquedo do que como um indivduo com quem jogar as regras do jogo social. Poucas eram as conquistas reais 
efetuadas, posto que os combates do perodo edpico so marcados pelas construes fantasmticas. As definies ou o 
aprendizado da realidade, notadamente a social, eram derivados adaptativos do saber e do querer parentais. Poucas, 
portanto, eram as dificuldades e os conflitos resolvidos sozinhos pelo grupo de crianas, O agressor era contido e punido 
pelos pais ou adultos afins. O que apanhava era por eles consolado. Os apelidos eram em geral familiares e carinhosos. 
Cada conquista era elogiada e supervalorizada, s vezes de forma excessiva. O erro, freqentemente ignorado. Isto 
responde  nsia dos pais de verem os filhos como realizadores, em fantasia, de tudo o que no puderam fazer, isto , v-
los como uma criana maravilhosa, 1 um novo messias que transcender as realizaes humanas. Isto, por outro lado, 
responde a uma ideologia ainda medieval de tratar as crianas como dbeis e incapazes, 2 maravilhando-se o adulto com 
cada realizao inesperada. No  difcil perceber que as duas posturas so projeticamente defensivas: ou se v o filho 
como uma extenso mgica do que se deveria ser; ou se o v como portador da impotncia da qual nos defendemos. 
As realizaes corporais e motoras anteriores tambm tinham como caractersticas a valorizao dos desempenhos e uma 
certa benevolncia com os fracassos. O filho  elogiado por andar de bicicleta aos 4 ou 5 anos, mas tolerado se no o 
conseguir. admi10 conceito da Criana maravilhosa  desenvolvido por Serge Leclaire 
em Mata-se uma criana. Rio de Janeiro, Zahar, 1977. 
2 Sobre as ideologias histricas no trato com as crianas, ver o excelente 
estudo de Philippe Aris, A histria social da criana e da famlia. Rio de 
Janeiro, Zahar, 1978. 
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rado como atleta se souber nadar, mas tolerado com um certo humor se a gua o assustar. No nos esqueamos de que o 
humor  uma forma disfarada, tanto ao nvel social como ao nvel da conscincia, de exprimir uma ira, um temor ou uma 
frustrao que no podemos tolerar. 
A aprendizagem da realidade social comea agora a ser simultaneamente maravilhosa e cruel. Os grupos de companheiros 
comeam a se formar. Num primeiro momento, premidos pela formao 
reativa decorrente do dipo, meninos e meninas se separam em grupos unissexuados. Num segundo momento, os grupos 
j so divididos segundo algumas caractersticas comuns, ou seja, este  um primeiro suporte em superidentificaes 
macias, que tanto caracterizaro as posteriores filiaes grupais dos adolescentes na luta pela aquisio da identidade. As 
revistas realmente infantis so sbias em jogar positivamente com estes sentimentos sociais emergentes. Os clubes do 
Bolinha e da Luluznha so bastante exemplif icadores. Na mesma revista, a eterna guerra da turma da zona norte contra a 
da zona sul reflete a identificao comum, no caso dada pela moradia, a partir da qual h um superinvestimento neste 
elemento comum e forte, que polariza a integrao do primeiro grupo social organizado e espontneo. Estes grupos se 
organizam em torno dos locais comuns de encontro, como a residncia, a escola, o clube e o local comunitrio de 
reunies. Uma vez organizados, inicia-se a formao de todas as estruturas rudimentares que evoluiro para as regras da 
socializao adulta. O conflito pelo poder ser estabelecido. Demonstraes de fora, de esperteza, de disponibilidade 
econmica (dentro das parcas mesadas de cada um) e de coragem caracterizaro a luta pela liderana. E cada qual, dentro 
daquilo no que  superior, ostentar seu domnio at a crueldade. O superego, cristalizado pelo dipo, comear suas 
primeiras discriminaes reais do bem e do mal, e tanto o bem quanto o mal sero exercitados. No sero raros os 
episdios de agresso e de segregao. Mas num grupo sadio, os episdios de camaradagem, de unio, de luta pelo 
companheiro frgil, de perseverana em busca de um objetivo comum grandioso, como conseguir o terreno ao lado para 
jogar bola, predominaro. 
O grupo de crianas tambm tem a finalidade de ser uma fortaleza contra os adultos, notadamente a servio de um 
progressivo afastamento do ncleo familiar. E curioso como, de um lado, muitas das atitudes de bravura visam confrontar-
se exatamente com as 
Sobre este aspecto, ver as obras de Freud, O chiste e sua relao com 
o inconsciente (1905) e a parte sobre as parapraxias nas Conferncias introdutrias  psicanlise (1916). 
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regras de proteo impostas pelos pais. Renernse para nadar escondidos, para se aventurar em incurses pela vizinhana 
mais distante, para jogar bola em ruas onde h algum movimento de trnsito para atiar os cachorros da vizinhana, para 
quebrar as vidraas de alguma casa abandonada. Isto est parecido no s com o progressivo afastamento de casa, mas 
tambm com o exerccio dos valores morais e de realidade Mas, por outro lado, qualquer criana mais velha, quando 
acompanhada de uma menor, em geral aplica com rigor as regras morais e de segurana dadas em casa. Para a criana 
com um desenvolvimento normal, quaisquer que sejam as normas dadas por seu grupo, ainda haver a predominncia 
dos valores parentajs. A Oposio que ela manifesta no  um dado de oposio real, mas um mero exerccio da 
estabilizao de seus valores ou de seus traos iniciais de identidade Como regra geral, toda vez que uma criana se afasta 
muito da ideologia dos pais ou das normas vigentes no grupo social, isto pode ser considerado uma atitude defensiva, um 
sintoma que, ou visa proteg-la de uma defasagem evolutiva que ela percebe, ou  uma reao sintomtica s 
ambigidades vividas pelos prprios pais. Assim, uma criana disprxjca ou hiperativa poder se tornar uma criana 
delinqente na escola, recusando as tarefas, desafiando a professora, agredindo os colegas ou mobilizandoo5 contra o 
estabelecimento como um processo inconsciente de se proteger da pecha de incapaz. Em algum nvel ela sabe que seu 
desempeniio  insatisfatrio, e  melhor ser Considerada como mau-carter do que ser considerada burra. Um 
comportamento escolar semelhante pode ser expresso por uma criana com dificuldades de fazer suas identificaes com 
um pai ambguo, seja porque este tenta tornar a criana um objeto mgico de reparao de suas anteriores incapacidades, 
seja porque  um pai ainda preso ao prprio complexo de Edipo e no pode Suportar a competio normal com o filho  a 
escola  utilizada ento como ponto de ataque e retaliao 
A configurao que o grupo d a cada criana em particular  tambm um trao marcante na configurao inicial da 
identidade. E caractestjco como os grupos de crianas so sagazes em pegar o trao mais tipico de cada uma e transfoj0 
em um apelido. Estes cognom presos a traos fsicos ou de Conduta so ostentados com grande orgulho pelas crianas, 
posto que so denominaes que lhes ifldjcam uma prpria, reconhecida externamente. Muitos destes apelidos chocam os 
adultos, que no conseguem entender Como algum pode se orgulhar de ser chamado de rato, cabea, vareta 
pezo jumento e outras denominaes similares Em primeiro lugar, a denominao infantil pode estar fundamentada 
em relaes que desconlieemos e o jumento pode os- 
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tentar o apelido representativo de sua fora, o pezo pode ser o artilheiro do time, o rato aquele que 
consegue encontrar as coisas para o grupo, mesmo roubadas. Em segundo lugar,  importante ser 
reconhecido como membro do grupo e como portador de caractersticas prprias. Assim  que se jumento 
for designativo de burrice,  melhor ser reconhecido como um membro inferior e brigar contra isto, do que 
ser ignorado. Por isso os boio, p-dearroz, casco, bunda-mole e outros cognomes pejorativos 
podem ser suportados. Os prias e os bodes expiatrios do time esto dentro do mesmo processo.  melhor 
ser perseguido, mas manter a pertinncia ao grupo, do que ser ignorado. Um dado a ser levado em conta, 
observado freqentemente no trabalho clnico,  que normalmente as crianas que acabam sendo escolhidas 
como bodes expiatrios do grupo j vm de casa com este sentimento de desvalorizao, mesmo que a 
estrutura de fantasia familiar coloque esta desvalorizao de uma forma sutil ou disfarada. Parece que em 
geral o sentimento bsico  que s pode existir se for inferior, se no ocupar lugar, se no ameaar as posies 
dominantes. No  difcil tambm correlacionar que um pai colrico ou inseguro de sua masculinidade estar 
propenso a estruturar este modelo de relao. 
1.1.4 A elaborao transicional da sexualidade 
O perodo de latncia, decorrente que  dos processos repressivos desencadeados com a transposio do 
Edipo, tem sido tradicionalmente visto pela psicanlise como uma etapa de dormncia da sexualidade. Esta 
relao necessita ser mais bem compreendida. Isto no significa que a sexualidade desaparece magicamente, 
sendo retomada apenas pelos apelos hormonais da adolescncia. Quando nos referimos  dormncia da 
sexualidade, estamos especificando um momento caracterizado por dois elementos bsicos. Em primeiro 
lugar, nos referimos a um perodo onde a sexualidade no sofre novas reestruturaes, e os modelos 
estabelecidos com a soluo do Edipo permanecem os mesmos durante a etapa, sejam eles evolutivamente 
normais, sejam vivncias parciais e patolgicas. Em segundo lugar, nos referimos a uma etapa onde a 
sexualidade no surge  conscincia como elemento dominante, ou seja, ou ela empresta sua fora ao 
pensamento, atravs das sublimaes, ou ela surge atravs de sintomas. Talvez fosse necessrio colocar o 
termo sintoma entre aspas, uma vez que no estamos nos referindo especificamente  sintomatologia 
patolgica, mas sim a uma formao inconsciente que, ao emergir para a conscincia, o faz atravs de 
processos defensivos ou simblicos, tal qual ocorre nos sonhos ou nos atos falhos. Freud j os considerava 
um exemplo da formao de sintomas. 
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Nas crianas em idade escolar, podemos dizer que a organizao sexual aparecer em primeiro lugar atravs 
de uma forma defensiva tpica do perodo, que  a formao reativa, e, em segundo lugar, aparecer como um 
elemento a ser elaborado no plano simblico, notadamente atravs das canes, dos jogos e rituais e dos 
contos de fadas. Ao utilizarmos a terminologia elaborao transicional, tomamos o termo transicional 
emprestado de Winnicott, para caracterizarmos um campo intermedirio, que nem  propriamente a 
emergncia da fantasia ou temor especficos, nem a sua realizao efetiva no mundo. Tal qual a criana pode 
dormir com o ursinho, ou seja, nem est com a presena da me que a confortaria, nem est to s que o 
temor a impea de dormir, a criana em idade escolar no elimina a vivncia das fantasias sexuais, mas no as 
vive de forma direta, nem em fantasia, nem em realidade. Ela as elabora em um campo intermedirio, onde os 
temores podem ser explorados e amainados e onde os desejos podem ter uma realizao simblica, num 
processo muito parecido com a realizao mgica de desejos. ocorrida nos sonhos, ao nvel dos processos 
primrios. 
As defesas por formao reativa aparecero ao nvel de vrias condutas infantis. Seu componente bsico  a 
luta contra a fantasia do incesto, to recentemente superada. A atrao por uma figura do sexo oposto  forte, 
mas reprimida. Esta atrao  profundamente contaminada pelo desejo dirigido  figura parental de sexo 
oposto. Embora barrado por um forte processo repressivo, o desejo  tambm forte e tende a surgir. Um Ego 
sadio, utilizando os mecanismos de defesa de que dispe, poder reverter o interesse, tomando-o pela 
dimenso contrria. Isto  uma formao reativa, e os processos se passam ao nvel do inconsciente. J os 
estudamos no primeiro volume desta coleo. Como resultado desta defesa, uma primeira caracterstica social 
da criana escolar  a profunda rejeio pelas companhias de sexo oposto. Da a formao dos clubes de 
meninos e clubes de meninas. Esta diviso no se processa apenas ao nvel dos grupos. Na escola o 
isolamento tambm  tpico, e as brincadeiras maldosas so freqentemente dirigidas aos membros do sexo 
contrrio. As coisas de meninos e de meninas so radicalmente dicotomjzadas. sendo profundamente 
humilhante ser pego em tarefa que no lhe corresponde. E lgico que, a esta reao, soma-se o exerccio das 
identificaes sexuais recentemente introjetadas. Estes processos defensivos aparecero ainda em outros 
nveis simblicos, como as aventuras tpicas desta idade, onde os nufragos e perdidos nas selvas so 
usualmente do mesmo sexo, ou seja, o impulso para o companheirismo supera nesta etapa a atrao 
heterossexual, muito mais caracterstica da etapa anterior e das posteriores. 
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j 
No plano do jogos rituais, todos estamos cansados de ver com que obsesso a criana escolar anda pelas 
caladas ou equilibra-se pelas guias, tomando o mximo cuidado para no pisar nas rachaduras. A rachadura 
ou a ruptura  um elemento simblico freqentemente associado ao desvirginamento ou  penetrao sexual. 
O jogo, repetido de uma maneira compulsiva, parece atender ao impulso sexual que no consegue ficar 
reprimido, emergindo atravs de um smbolo que o permite e o oculta, e ao mesmo tempo parece elaborar 
transicionalmente a luta contra o incesto. 
As canes infantis apresentam freqentemente a mesma elaborao. Como um exemplo mais ostensivo, a 
cano de roda Teresinha de Jesus retrata o processo num simbolismo bastante direto. Fala de uma menina 
que tem uma queda e acodem trs cavaIbeiros para ampar-la. Sucessivamente o pai, o irmo e o seu 
prometido. No  necessrio muito esforo elaborativo para correlacionar a queda ao susto ou aos temores 
advindos da sexualidade do perodo flico. A sucesso dos cavalheiros tem uma mensagem muito saudvel. 
Mostra que a atrao ou o atendimento ao apelo pode conter a fantasia do pai ou do irmo, mas que quem a 
levantar ser aquele a quem ela se oferecer para o casamento. Isto  um exemplo tpico de elaborao 
transicional da sexualidade. Pode haver a sexualidade, ela pode e deve surgir em casa, mas dever ser 
realizada fora. A cano assume esta elaborao entre os temores do dipo e a heterossexualidade genital 
dirigida para fora. 
Os contos infantis so o exemplo mais tpico desta elaborao transicional. Estas histrias so, normalmente, 
produto de uma transmisso oral efetuada durante muitas geraes. A partir de um tema, os sucessivos 
contadores de histrias vo ampliando, reduzindo e reelaborando os elementos centrais, de acordo com a 
motivao e o interesse despertado pelo ouvinte. Aps um certo tempo de amadurecimento da histria, esta se 
estabiliza. Neste momento, ela  portadora de uma mensagem universal, prenhe de um simbolismo que 
ressona com valores e processos fundamentais do inconsciente humano. Por isso os livros sacros e de 
provrbios e contos populares, que foram alvo de transmisso oral durante sculos, trazem na forma final que 
assumiram mensagens sempre atuais e significativas: elas falam de valores e processos humanos 
fundamentais. 
Vamos tomar como exemplo o conto clssico O chapeuzinho vermelho. 1. a histria de uma menininha, 
mas j quase mocinha, tanto que pode ser enviada por sua me para levar doces para a vovozinha.  
extremamente recomendado por sua me que se conduza pelo caminho correto, pois o caminho do bosque 
pode ser perigoso. Desvia-se do caminho indicado por sua me e, por sugesto do Lobo 
lo 
Mau, distrai-se colhendo flores e s chega  casa da av  noite. L se encontrava o Lobo Mau na cama. Havia prendido 
ou devorado a av, dependendo da verso. Mas aguarda a menina que comea a interrogar explorativamente seu corpo, 
at que ele a ataca. Finalmente,  salva por um caador que mata o Lobo. Os elementos simblicos de uma elaborao 
transicional da sexualidade esto novamente presentes. A me que sadiamente libera a filha, mas que por outro lado a 
restringe. As informaes sobre o perigo so parciais. O bosque e as flores so os elementos simblicos dos instintos e da 
feminilidade. O Lobo  o representante do conquistador sexual, termo que inclusive faz parte da gria popular. Na verso 
original, posteriormente moralizada por uma pseudopedagogia puritana, a menina se deita na cama com o Lobo, antes 
de comear seu questionamento e ser atacada, O perigo sexual emerge extemporneo, e o caador como representante 
paterno vem salv-la. A entrada para a sexualjdade foi exercitada, com a conseqente mensagem de postergao. S aps 
a adolescncia e o conhecimento real das conquistas e perigos, a sexualidade externa poder ser buscada. 
Criticou-se aqui a alterao do final, porque o mito, como produto histrico, tem a forma adequada e definitiva. Fazer com 
que os Trs Porquinhos e o Lobo sejam amigos e a Gata Borralheira perdoe as irms no s distorce um n)ito j 
depurado, como no atende ao rigor do bem e do mal que a criana exercita aps a cristalizao do superego. 
1.1.5 Leituras recomendadas 
1. Dolto, F. Psicanlise e pediatria. Rio de Janeiro, Zahar, 1972. 
2. Erikson, E. H. infncia e sociedade. Rio de Janeiro, Zabar, 1971. 
3. Freud, S. Trs ensaios para uma teoria sexual. 1905. 
4. Freud, S. A dissoluo do complexo de dipo. 1924. 
5. Mannoni, M. A criana atrasada e sua !ne. Lisboa, Moraes Ed., 1977. 
6. Soifer, R. Psiquiatria infan,iI operativo. Buenos Aires, Ediciones Kargie. man, 1974. 
7. Stone, L. J. e Church, J. infncia e adolescncia. Belo Horizonte. Inter- livros, 1972. 
1.2 Desenvolvimento emocional do adolescente 
1.2.1 Adolescncia e sociedade 
A adolescncia  uma inveno cultural. Nos grupos tribais, ou historicamente diferenciados da cultura ocidental, no 
ocorre o 
4 Stone, L. J. e Chiirch, J. infncia e adolescncia, 2. ed. Belo Horizonte. Interlivros, 1972. 
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longo perodo que separa as atividades infantis da plena integrao do sujeito ao grupo produtivo e 
reprodutor. A criana  tida como tal at que as maturaes e alteraes biolgicas iniciem a puberdade e 
caracterizem sua passagem para o grupo adulto. Normalmente nestes grupos h um ritual de passagem, s 
vezes antecedido por um perodo de recolhimento, que caracterizar oficialmente a entrada nas relaes 
adultas. 
As culturas tecnicamente menos sofisticadas no tm motivos para retardar o ingresso do jovem nas suas 
estruturas sociais. O que algum necessita para ser adulto dentro destes grupos? Necessita ser capaz de 
reproduzir-se e de, dentro da ideologia do grupo ser capaz de prover o sustento dos filhos ou os cuidados 
domsticos e agrrios em geral atribudos s mulheres. Em geral, aos 13 e 15 anos para as mulheres e os 
homens, j h a maturao de espermatozides vivos e, superado o perodo inicial das primeiras 
menstruaes (quando em geral a mulher ainda  estril), a menina j pode engravidar e conceber. As tarefas 
masculinas, como a caa, a pesca e eventualmente algum tipo de pastoreio ou agricultura, podem ser to bem 
ou melhor desempenhadas por um garoto de 15 anos do que por um homem de 40. As tarefas femininas junto 
 primitiva casa, o cuidado com os filhos, a manufaturao de utenslios domsticos tambm podem ser to 
bem efetuados por uma adolescente, quanto por uma mulher mais madura. 
 com a especializao, ou o desenvolvimento tecnolgico de uma cultura, que progressivamente se comea a 
cobrar, cada vez mais, da formao profissional; ou seja, o perodo de preparao do adulto, at que realmente 
ele seja um produtor, comea a ser estendido, invadindo todo o perodo que sucede a puberdade ou mesmo 
atingindo perodos significativos do adulto inicial. Por exemplo, as profisses de nvel superior, 
caractersticas das culturas desenvolvidas, exigem uma longa formao na escola bsica, alguns anos de 
formao em nvel de segundo grau, cinco ou seis anos de formao universitria, seguidos de mais alguns de 
especializaes, residncias e ps-graduaes. Ou seja, o aprendiz bem-sucedido s as concluir entre os 25 e 
30 anos. Quer digamos que s tem poder de deciso aquele que domina os meios de produo, quer usemos o 
ditame popular que reza que quem no d dinheiro, no d palpite, fica claro que houve uma defasagem de 
pelo menos dez anos entre o perodo em que o jovem tornou-se um reprodutor biolgico e o momento em 
que, ao se tornar um produtor social, poder constituir sua famlia e sua prole. 
Uma primeira reflexo que nos fica  sobre a habilidade histrica das sociedades em tratar com a 
adolescncia. Os modelos tribais 
12 
que caracterizaram a quase totalidade da evoluo humana e da formao de modelos de relao com o 
mundo j no mais podem ser aplicados dentro das novas necessidades de preparao do produtor. Isto , a 
ideologia social toma-se ambgua e especuladora sobre o que cobrar e quando cobrar do jovem adolescente. 
Num Estado norte-americano ele pode dirigir aos 14 anos, e em outro  
considerado delinqente se beber antes dos 21. Pode no Brasil, com autorizao judicial, casar e construir 
famlia a partir dos 14, mas no  responsvel para dirigir antes dos 18. No pode efetuar uma pequena 
compra pelo credirio antes dos 21, mas pode votar e eleger senadores e presidentes aos 18. Stone caracteriza 
muito bem esta ambigidade ao mostrar como  difcil para o interlocutor se dirigir a uma platia de 
adolescentes: no cabe nem um tratamento de crianas, nem um de adultos, e as colocaes 
intermedirias no estruturam modelos definidos. A mesma ambigidade refletida pela organizao de 
algumas leis fica, freqentemente, exacerbada nas relaes domsticas, ou seja, a jovem de 20 anos, 
universitria, eleitora, leva uma solene reprimenda se chegar tarde em casa ou passar a noite fora. 
No temos,  lgico, apenas a dicotomia entre sociedades tribais e ps-industriais. Temos toda uma escala de 
estdios intermedirios, dos grupos rurais nos pases em desenvolvimento aos operrios especializados dos 
pases mais desenvolvidos. E fica claro o alongamento da adolescncia  medida que o grupo social se torna 
tecnicamente mais desenvolvido. Nos grupos rurais, aos 18 anos os jovens j esto produzindo ativamente e 
j buscam o casamento. Esta idade vai-se ampliando at a entrada para o trabalho e o casamento entre os 25-
30 anos nos grupos mais desenvolvidos. 
1.2.1.1 Sndrome da ambivalncja dual: a crise domstica 
O adolescente, dentro de seu processo de configurao de identidade, passar pelas crises de efetuar escolhas 
dentro do mundo. Nos termos de Erikson, dever definir as identidades sexual, profissional e ideolgica. Cada 
uma destas crises implicar trazer  tona os prs e os contras que caracterizam qualquer opo, bem como 
atualizar a energia, a vitalidade e a coragem necessrias para enfrentar a conquista dos objetivos que definiu. 
 uma caracterstica humana, diante de qualquer conquista, derrota ou crise de escolha vivida pelo outro, 
retomar os momentos da prpria histria passada, nos quais se viveram emoes ou duvidas similares. Isto  
vlido desde os nveis aparentemente mais elementares da tristeza ou pesar que nos contagia em um funeral, 
do com13 
J 
partilhamento explosivo das comemoraes feitas por entes queridos, at nveis aparentemente pouco 
discriminados em sua complexidade, como as reflexes vividas pelo adolescente em sua busca de definio 
de vida. 
Todas as crises pelas quais o adolescente passar provocaro uma ressonncia, uma atualizao das mesmas 
crises nos pais, isto , cada conflito com o qual o adolescente se defronta far com que os pais retomem o 
mesmo conflito vivido quando adolescentes. Stone denomina este conflito sndrome da ambivalncia dual, ou 
seja, cada conflito  vivido a dois. Quando o adolescente oscila em sua definio profissional, questiona se 
vale a pena assumir uma profisso rentvel e segura, mas que no o satisfaz, ou se penetra em uma atividade 
que o envolve, mas incerta quanto ao sucesso, isto faz com que inconscientemente o pai reviva o mesmo 
conflito existente em sua adolescncia. Como pode o pai permitir que o filho troque a segurana de uma 
carreira pblica para se dedicar  msica ou ao cinema, se em seu passado ficou a mgoa de ter sacrificado o 
que realmente desejava em troca de segurana ou melhor rendimento econmico? Como dar ao filho a opo 
que ele no foi capaz de assumir? Admitir que o filho triunfar em tal empreitada  tambm admitir que ele, o 
pai, no teve suficiente coragem e energia para buscar o que desejou. 
Nas outras reas de de,finio da identidade o conflito fica similar. Dar  filha a opo da liberdade sexual, de 
conhecer em outros nveis o relacionamento com seu parceiro, de relegar a segundo nvel as tarefas 
domsticas e dedicar-se ao seu desenvolvimento profissional  retomar a suas prprias indecises de 
adolescncia. Como permitir opes que no teve, principalmente se as que fez ressoam insatisfatrias? 
Os conflitos que o adolescente vive, normais em seu estdio de desenvolvimento, so bem ou mal suportados 
pelos pais na proporo em que estes resolveram bem seus conflitos passados e optaram por solues que lhes 
so significativas. Os pais seguros de suas opes profissional, sexual e ideolgica sentir-se-o menos 
ameaados pelos caminhos que seus filhos tomarem, porque  a segurana do que somos e a coerncia de 
nossas escolhas que nos permitem aceitar o que o outro , e a escolha que faz. 
Devemos ter claro que esta  uma das dimenses do conflito. J analisamos que a sociedade tem 
ambivalncias ao definir o lugar do adolescente, e estas dificuldades faro parte das atitudes dos pais. 
Oscilaro entre tratar o filho como uma criana desprotegida, para quem  preciso abrir todos os caminhos, e 
em jog-lo para uma independncia onde ambos, pais e filhos, tm dvidas sobre o quanto 
o adolescente est pronto para a empreitada. Verificamos agora que, alm da dificuldade em definir o lugar do 
adolescente, suas crises reacendero antigas feridas parentais, e uma luta inconsciente pela autopreservao 
dos valores estar sendo travada. Os pais ficam na posio da raposa da fbula das uvas. Se no conseguiram 
alguma coisa, tendero a admitir que ela no presta, porque lhes ser doloroso admitir que no tiveram 
capacidade para buscar e conseguir o que realmente valorizaram. Porm, se conseguem, tendero a 
supervalorizar o que conseguiram, ou seja, no podero admitir que seu esforo foi em vo. Se a raposa 
tivesse finalmente conseguido alcanar as uvas, mesmo que verdes, ela tenderia a ach-las saborosas, a fim de 
valorizar a adequao de seu esforo e de sua conquista. Este mecanismo  conhecido em psicologia como 
Teoria da Dissonncia Cognitiva, ou seja, h um modelo geral de defesa psicolgica onde tendemos a negar o 
valor do que no conseguimos e a supervalorizar nossas conquistas. O mecanismo  um processo normal, mas 
sabemos que a sociedade no oferece condies para que todos possam realizar seus projetos, nem todos 
possuem capacidade para realizar-se contra todas as barreiras. Quando somamos a sndrome da ambivalncia 
dual ao modelo descrito pela teoria da dissonncia cognitiva, fica fcil compreender por que  to freqente a 
tentativa parental de impor seus modelos de mundo aos filhos. 
Uma terceira dimenso do conflito so as crises normais que o adolescente vive na transio da infncia para 
a formao do adulto. Estas crises sero analisadas em seo posterior. Mas j nos  possvel concluir que as 
manifestaes dos conflitos que observamos esto superdeterminadas ao nvel social, ao nvel familiar e ao 
nvel individual. 
1.2.2 Adolescncia como crise 
Como perodo de organizao final das aquisies, a adolescncia atualiza e reflete todas as crises e 
dificuldades enquistadas no processo de desenvolvimento. 
de perdas,  necessrio que as tas anteriores tenham sido ade4iidameiid para que perdas IbTen htaTIo 
reT O rpo de infancia e per dido.  laborao do luto de ihiiiiipreservar internamente a imagem de uma 
infncia valorizada, que simultaneamente sobrevive como processo de construo e  perdida como realidade 
passada. No haver mais a proteo dada pelos pais durante a infncia, mas a proteo que eles deram 
permitiu crescer, e  a segurana do crescimento que permitir ao adolescente deixar a casa paterna para 
14 
15 
assumir o rol adulto. Se no existir esta segurana, restar um apego mrbido ao passado, um 
pedido de proteo que  simultaneamente uma acusao e uma culpa. Uma acusao porque a 
segurana e o prazer lhe foram negados por pais sentidos como frgeis ou maus; uma culpa, porque 
a relao infantil  freqentemente especular no contato com os pais, portanto no lhe foi dado 
amor porque ele  como os pais, mau ou inadequado. E a tentativa de prender-se ao iassado  um 
grito que no encontra eco, a no ser na repetio permanente dos modelos infantis diante de cada 
tarefa onde deveria comportar-se como adulto. Freud j definia a neurose como um infantilismo 
psquico. O modelo de conduta se torna doente. No  sem motivo que a grande maioria dos surtos 
neurticos e psicticos eclodem na adolescncia final. 
A imagem do corpo de infncia parece agregar todas as vivncias e fantasias dos perodos 
anteriores. Nesta imagem esto presentes a onipotncia, a bissexualidade, a dependncia, o prazer 
das vivncias das sexualidades parciais, os vnculos edpicos em seus vrios nveis e, em grande 
parte, a expectativa mgica da realizao de todos os desejos. A perda da onipotncia s se faz no 
amor e na lei. Spitz define bem a aquisio do no como o momento em que a interdio  
internalizada, e seu grande mrito  bloquear a realzao direta dos processos primrios, para que o 
indivduo possa buscar seu desenvolvimento nos processos secundrios; ou seja, a internalizao da 
interdio permite o progressivo controle do Ego sobre o Id. A adolescncia marca um fecho deste 
processo, porque  o momento em que as identificaes vo-se estruturar na identidade e os 
modelos mgicos de realizao tero o derradeiro teste de realidade. 
As aquisies, que se constroem sobre a superao dos modelos anteriores, geram a angstia de no 
estar nem em um lugar, nem em outro. O corpo infantil  perdido, mas h necessidade de um grande 
tempo para a construo e elaborao do corpo adulto. Ao nvel prxico, o esquema corporal 
instrumental que se havia estabilizado aos 10 ou 12 anos fica alterado. O crescimento  rpido no 
perodo dos dois anos anteriores e posteriores  puberdade. Alm de rpido,  desproporcional; os 
membros se alongam, o corpo emagrece, os ngulos se salientam. A mudana quase que brusca no 
permite uma adaptao harmnica dos processos. O adolescente no s se sente desajeitado, como  
desajeitado. Regula mal o domnio de um corpo ao qual ainda no se adaptou bem. A criana 
pequena no dominava bem seu corpo, mas nunca havia obtido seu domnio. O adolescente perde 
seu domnio exatamente aps o momento de sua aquisio. Encontra-se perplexo diante de um 
corpo 
que  seu, mas que lhe soa estranho. Os fatores libidinais em evoluo, paralelos a outras alteraes fsicas, s 
vezes o aterrorizam, s vezes o empolgam e em geral produzem um processo duplo e ambguo. A puberdade o 
deixa oscilando entre a tricofilia e a tricofobia. Ama os plos que lhe do o status de adulto, mas apavora-se 
com as alteraes que o jogam num caminho ainda desconhecido. As alteraes nas caractersticas sexuais 
secundrias, se lhe indicam uma definio, lhe do uma definio ainda ingnua para compensar uma 
bissexualidade perdida. A evoluo  sentida como uma troca um pouco difcil de ser realizada. 
A sexualidade vem com o mesmo matiz. De um lado a natural evoluo para a genitalidade fora a definio, 
de outro, ao nvel da onipotncia, a definio  tambm uma perda. Perda dupla, porque a fantasia bissexual  
onipotente ao definir como sendo tudo, homem e mulher, fecundante e fecundado, portadpr das duas metades 
da dicotomia humana bsica. Aceitar-se como um e somente um dos lados,  viver a perda de uma 
onipotncia inicial e comear a elaborar a castrao simblica, ou seja, poder perder as relaes infantis e 
iniciar sua reconstruo num mundo de sujeito, de portador da sua prpria independncia e vontade, sem que 
a perda se configure na perspectiva de um ataque real ao corpo. No est dividido e perdeu porque fez a 
escolha, mas est definido em busca de sua construo. Na escolha sadia, a perspectiva de construo  
superior em gratificao  frustrao pela perda. 
1.2.3 A organizao da identidade 
Definir padres de identidade  tarefa complexa e com divergncia de um para outro modelo terico, O 
prprio Vocabulrio de Psicanlise de Laplanche e Pontalis, o maior dicionrio especfico de Psicanlise, 
omite o termo, apresentando apenas vrios mecanismos de identificao descritos pela Psicanlise. Rodolfo 
Bohoslavsky tambm se depara com a conceituao de identidade ao organizar seu modelo clnico de 
orientao vocacional. Acaba, por um lado, ficando com a definio psicossocial de Erikson, a qual divide a 
aquisio da identidade em trs compartimentos centrais: 
sexual, profissional e ideolgico (poltico-religioso). Por outro lado, ao integr-los dinamicamente, recorre a 
Allport para definir a existncia da identidade, quando as identificaes perdem o carter 
Lap1anche, J. e Pontalis, 1. 8. Vocabulrio de Psicanlise. So Paulo, Livraria Martins Fontes Editora, 1975. 
6 Bohoslavsky, R. Orientacin vocacional  La estrategia clnica. Buenos Aires, Editorial Nueva Visin. 1976 (h 
traduo em portugus). 
16 
17 
defensivo que as configuraram, passando a integrar uma autonomia funcional de identificaes. Ou seja, a 
identidade fica definida como uma evoluo que parte de mltiplas identificaes, constituindo uma nova 
gestalt original e funcional do sujeito. 
Ao nvel do senso comum, utilizamos indistintamente os termos personalidade e identidade. Fulano no se 
define, no sabe o que quer, no tem personalidade. Neste posicionamento leigo, temos que o indivduo  
simultaneamente cobrado em seus padres de conduta e em sua definio de ideologia pessoal de mundo. Os 
padres de conduta cobrados ficam mais prximos das definies de personalidade, e a definio das 
aquisies ficaria mais prxima dos conceitos de identidade. Mas os dois conceitos so extremamente 
interdependentes. 
 impossvel dissociar nossas aquisies de nossa conduta. O ser humano  uma gestalt, ou uma totalidade 
superdeterminada. Por isso, fica to difcil discutir a normalidade. Mesmo na colocao central de Freud, 
indicando que o normal  aquele que  capaz de amar e trabalhar, ambos os termos so vistos em seu 
significado amplo, pois, se esta afirmao nos d o sentimento de entender a normalidade atravs de sua 
amplitude, ela se esvazia pela prpria abrangncia, deixando-nos perdidos numa tentativa de fazer as 
especificidades tericas. Especificidades que buscamos sempre, justificadas pelo af da compreenso terica, 
mas que no deixam de ocultar nossas fantasias de concretude ou de onipotncia. Quando cobramos de 
algum que tenha personalidade ou identidade no sentido leigo, estamos exigindo a emergncia de um 
sujeito normal, normalidade esta que em nossa exigncia fica confundida entre os parmetros da regra e da 
idealizao. Para Canguilhem, o normal no  um conceito esttico ou pacfico, e sim um conceito dinmico 
e polmico, citando a seguir Gaston Bachelard para mostrar que todo valor s pode surgir por oposio a um 
antivalor. No apndice final, elaborado 20 anos aps o trabalho original, Canguilhem encerra concluindo que 
a ameaa da doena  um dos elementos constitutivos da sade. Podemos parafrase-lo dizendo que a busca 
da configurao terica das distores  o que nos delineia, por oposio, o modelo de sanidade. 
Erik Erikson possui nestes aspectos um trabalho bastante peculiar. 8 Partindo das fases da evoluo da libido 
descritas por Freud, Erikson socializa as etapas de evoluo, fazendo corresponder a cada uma delas uma 
aquisio que o indivduo deve realizar em sua 
Canguilhem, G. O normal e o patolgico. Rio de Janeiro, Editora Forense Universitria, 1978. 
8 Erikson, E. H. Infncia e sociedade. Rio de Janeiro, Zahar, 1971. 
18 
interao com o mundo. A Psicanlise tem tido a reocupao de estudar as razes da patologia, emergindo 
como pro uto paralelo  construo das aquisies, postura absolutamente normal tendo em vista que o 
conhecimento psicanaltico tem evoludo basicamente atravs da experincia clnica. Erikson, embora oriundo 
da experincia clnica, tenta organizar ou operacjonajjzar as aquisies bsicas feitas a cada etapa do 
desenvolvimento; aquisies que, bem ou mal elaboradas, So cobradas na interao com o mundo em cada 
perodo especfico. Para definir cada etapa de aquisio, Erjkson usa o termo crise PSiCOSsocjal Vamos 
comear examinando seu conceito de crise. Em primeiro lugar, est implcita no conceito a idia de uma etapa 
de desenvolvimento, com faixa etria relativamente definida, uma vez que constitui um modelo universal de 
desenvol vimento. Esta etapa do desenvolvimento  o momento em que o indivduo est particularmente 
pronto para realizar uma aquisio;  quando esta aquisio poder ser mais adequadam estabelecida e 
tambm o momento em que as condies externas, em situao normal, mais a favorecem. Este conceito de 
crise pode ser visto, portanto, como um momento crtico  similar aos conceitos de evoluo orgnica, onde 
os rgos que esto em pico de desenvolvi mento so particularmente sensveis s Condies externas. A 
planta, adubada no momento certo, podada no momento exato, recebendo chuvas nos perodos normais, 
frutificar abundantemente. A antecipao ou o atraso das chuvas impedir a inflorescncia ou a derrubar. 
Quando uma gestante  atingida por uma virose por exemplo a rubola, que tem caractersticas teratognicas 
so exatamente os rgos que esto em maior desenvolvimento naquele perodo que sero atingidos. Cada 
aquisio orgnica tem, portanto, um momento tpico de desenvolvimento onde, se bem cuidada, 
desenvolver rgos sadios, se injuriada, seus rgos sero atingidos em seu crescimento, s vezes de maneira 
irrecupervel. Este conceito de momento crtico  tambm o que est presente no conceito de imprinting da 
etiologia. Alguns pssaros, por exemplo o flOSso avinhado (curi), Possuem um perodo tpico de aprendizado 
do canto. Se neste momento ouvirem apenas o canto tpico da espcie, desenvolv -Joo com notvel beleza. 
Se no o ouvirem, o canto ser distorcido. No adiantar haver tentativas posteriores de adequ-lo novamente 
Mesmo no momento crtico, se outros cantos se misturarem ao da espcie, O resultado ser contaminado e 
dificilmente corrigido. 
Outro exemplo de momento crtico  bem ilustrado pelos patos dos estudos de Lorenz. O impulso original do 
patinho  eguir qualquer objeto que se desloque  sua frente. Este objeto  suaI9 
II 
mente a me, ou seja, a pata. Este objeto que  seguido se configura como a imagem  qual o patinho se relacionar, 
considerando-a um membro da espcie. Quando uma caixa  arrastada diante do patinho, num perodo tpico de 
configurao desta imagem,   caixa que o patinho seguir, e  com esta caixa que ele estabelecer todos os 
relacionamentos que teria com os membros de sua espcie. As condutas que deveriam ocorrer diante da me passam a ser 
estabilizadas com a caixa. Se em vez da caixa, andarmos diante do patinho, ns seremos vistos por ele como sendo da 
mesma espcie, ou seja, todos os comportamentos, inclusive o de corte quando for adulto, sero dirigidos a ns. 
Finalmente, cada crise psicossocial, em sua soluo, estabelece um sentimento de ou sentido de, como uma aquisio 
interior firme, que marca uma etapa de aquisio ou seu reverso patolgico. Por exemplo, o sentimento de confiana 
bsico decorrente da primeira crise  algo que impregna a superfcie e a profundidade, incluindo o que sentimos como 
conscincia ou o que permanece vagamente consciente ou  inteiramente inconsciente. Para Erikson, este sentimento 
consciente  acessvel  introspeco. Sentimos em ns a confiana, a autonomia etc. Como estados interiores, s sero 
acessveis atravs de anlise ou de testes especficos. 
1.2.4 O ciclo vital de Erikson: as crises psicossociais 
A organizao da identidade  a etapa central proposta por Erikson na evoluo do iclo vital humano.  um momento de 
sntese, de transformao de identificaes em identidade e de interao original com o mundo. Erikson parte das fases 
descritas por Freud, relacionando cada uma delas a uma crise psicossocial, com exceo da etapa genital, por ele 
subdividida em quatro crises. Freud define a organizao da genitalidade a partir da adolescncia, no especificando 
outros momentos crticos da evoluo afetiva humana. Erikson v a adolescncia como um momento crtico de 
integrao das etapas anteriores (permanece a idia de Freud de que os momentos infantis esto ligados  sexualidade ou a 
organizaes afetivas parciais), mas procura demonstrar que este momento, que d uma primeira percepo correta de 
unidade de personalidade e capacidade de percepo correta do mundo e dela prpria, remete o indivduo a outras 
etapas de integrao individual e das relaes sociais. No princpio epigentico, que domina o modelo do ciclo vital, 
parece ter Erikson o seu momento crtico de evoluo na crise de identidade. Sua definio de princpio 
9 Erikson, E. H. Identidade, juventude e crise. Rio de Janeiro, Zahar, 1971. 
20 
epigentico, ao remeter a evoluo de partes para a sntese global em funcionamento, parece coincidir bastante com as 
aquisies definidas para a identidade. Ei-la: 
Algo generaljza0, esse princpio afirma que tudo o que cresce tem um plano bsico e  a partir desse plano bsico que se 
erguem as partes ou peas componentes, tendo cada uma delas o seu tempo de ascenso especial, at que todas tenham 
sido levantadas para formar ento um todo em funcionamento (1976, p. 91). 
Nossa temtica atual  a adolescncia, mas este momento no poderia ser compreendido em Erikson sem a anlise 
completa do ciclo vital. As crises psicossociais de desenvolvimento propostas por Erikson so as seguintes, numa 
correlao com as fases de Freud:  
Freud Erikson 
Etapa Modalidade li Crise psicossocial 
oral-sensorial confiana bsica x 
desconfiana 
locomotora-genital autonomia x 
vergonha e dvida 
locomotoragenital iniciativa x culpa 
latncia indstria x 
inferioridade 
adolescncia identidade x 
confuso de papis 
idade adulta jovem intimidade x 
isolamento 
maturidade integridade de ego 
x desesperana 
1.2.4.1 Confiana versus desconfiana 
A primeira crise  estruturada durante a fase oral de desenvolvimento. Erikson a denomina oral-sensorial. Seu modelo de 
teoria sexual infantil  decorrente do modelo psicanaltico clssico, notada- mente da elaborao de Abraham, que 
organiza a oralidade em duas etapas, uma etapa oral de suco, portanto apenas receptiva, e uma 
 Erikson, E. H. Ob. cii. 1971. 
Erjkson usa o termo modalidade para os trs primeiros momentos, em 
substituio ao tipo de pulso que Freud descreve. Suas outras etapas possuem 
mais o sentido de continuidade da experinia e maturao. 
21 
Fase oral Fase anal 
Fase flica 
Perodo de latncia 
Fase genital 
etapa oral denominada por Abraham canibal, que est ligada s fantasias destrutivas (quer no sentido positivo, de 
combatividade do Ego, quer no negativo, das organizaes melanclicas). Erikson, ao efetuar seu diagrama evolutivo, 
tambm subdivide a etapa oral em dois perodos, denominados por ele modos orgnicos incorporativos 1 e 2. 
O primeiro modo orgnico est ligado a um foco de um primeiro e geral modo de aproximao, a saber, a 
incorporao (1971, p. 64). Nesta fase, em que as vivncias so estruturadas atravs da boca, o amor tambm  
recebido e retribudo atravs das fantasias orais centralizadas na amamentao. O prazer de ser alimentado e a relao 
com ele incorporada  a dimenso inicial do amor infantil. A certeza de que o alimento vir, de que a espera trar o 
alimento e a me amados configura a primeira resposta positiva de afeto que a criana elabora na relao com o mundo 
externo. Erikson exemplifica a dinmica desta etapa com um crculo aberto em um ponto, representaido o organismo, por 
onde uma seta indica o mundo externo penetrando e sendo incorporado. Mas embora a modalidade incorporativa 1 seja a 
dominante, Erikson define que neste momento j podemos observar os rendimentos das modalidades futuras se 
organizando: 
Assim, na primeira etapa incorporativa h uma tendncia a apertar as 
mandbulas e gengivas (segundo modo incorporativo),  salivao freqente 
(modo eliminatrio) e a cerrar os lbios (modo retentivo). Nos bebs vigorosos 
 possvel observar-se inclusive uma tendncia intrusiva geral de toda a cabea 
e pescoo, uma tendncia a aferrar-se ao mamilo e, por assim dizer, cravar-se 
ao seio (oral-intrsico) (1971. p. 65). 
No  difcil perceber que Erikson j define neste primeiro momer to todas as modalidades da teoria sexual freudiana 
(duas etapas orais, ligadas  recepo passiva e ativa, duas anais ligadas  projeo e ao controle, e uma flica, ligada  
intruso). Embora com modelo terico diferente, vemos que esta descrio da coexistncia das vrias etapas evolutivas no 
primeiro momento de vida foi feita tambm por Melanie Klein. A tarefa bsica do modo oral i  organizar o sentimento de 
obter. Obter significa receber e aceitar o que  dado. Este primeiro modelo de relao com o mundo ficar na 
dependncia de uma relao qualitativa com a me. O processo de auto-regulagem mtua da criana que aprende a 
receber, enquanto a me adapta a ela suas possibilidades de dar, desenvolve no s o sentimento de obter, mas tambm o 
de poder esperar que lhe dem, ou de conseguir que algum faa para ela o que desejava ter feito (1971, p. 67). Vemos 
que no s o Ego comea a se estruturar para a realidade, mas tambm comea a organizar no sujeito o ncleo daquilo que 
ser a sua capacidade futura de dar. 
22 
A segunda etapa oral descrita por Erikson coincide com o aparecimento dos dentes, que estruturam as modalidades sociais 
de tomar e agarrar. O conflito gerado pela amamentao neste perodo, j estudado por ns no segundo volume, ou 
seja, o de reter mas tambm magoar a me, estrutura para Erikson o primeiro momento crtico da relao entre o bom e 
o mau. Ao ilustrar o modo oral 2, Erikson o define como um crculo com uma abertura, onde as duas extremidades da 
abertura so setas indicando o fechamento ou a preenso do exterior que  recebido. 
Penso que agora  possvel estruturar a anttese bsica das relaes afetivas iniciais, segundo Erikson. A facilidade com 
que uma criana se alimenta, dorme e evacua  o indicador orgnico de que a relao inicial com a me est bem 
estabelecida. Pode aceitar a comida e sentir que  boa; a comida  boa tanto quanto a criana o . Pode desenvolver o 
sentimento de que o mundo  bom, que os provedores externos, representados pela me, no o abandonaro e podero 
satisfazer s suas necessidades. Esta certeza na predjzibiljdade exterior lhe estruturar a dimenso psicossocjal da 
confiana. Uma confiana que alicera inclusive as estruturas da f. O sentimento de crer, estrutura das religies,  
tambm derivado deste momento. Erikson define a religio como a virtude social desta etapa. 
A confiana, originada da certeza das relaes externas estveis, permite tambm  criana confiar em si. por ter a 
expectativa clara de que ser atendida, que poder aguardar nas necessidades. O Ego refora-se, pode elaborar o tempo e o 
pedido, no um grito de desespero, mas um pedido prenhe de compreenso Pode, em termos freudianos, sair do processo 
primrio e iniciar os rudimentos do secundrio. Erikson no acredita que a evoluo da criana nas etapas iniciais dependa 
da ateno ou alimentao quantitatjvame dadas. Os trabalhos de Spitz mostram que crianas tratadas dentro de modelos 
quantitativos perfeitos, dentro de instituies, tm seu desenvolvimento retardado. a maternagem qualitativa, organizada 
dentro de moldes que fazem sentido para a ideologia de mundo dos pais, que dar  criana a certeza de contar com o 
alimento e o amor vindos dos provedores o modelo ser vlido para as demais relaes estabelecidas com os pais. Diz 
Erikson: 
Os pais no devem se limitar a mtodos fixos de orientar por meio da proibio e da permisso; devem tambm ser 
capazes de afirmar  criana Uma Convico profunda, quase somtica, de que tudo o que fazem tem um Significado 
Enfim, as crianas no ficam neurticas por causa das frustraoes, mas da falta ou da perda de significado social nessas 
frustraes (1971. p. 229). 
iI 
23 
O prprio Erikson sintetiza o sentido da aquisio da confiana em trabalho publicado 18 anos mais tarde:2 
O estado geral de confiana, alm disso, implica no s que aprendeu a confiar na uniformidade e continuidade dos 
provedores externos, mas tambm em si prprio e na capacidade dos prprios rgos para fazer frente aos impulsos e 
anseios; que est apto a considerar-se suficientemente idneo para que os provedores no precisem estar em guarda ou que 
o abandonem 
(1976, p. 102). 
1.2.4,2 Autonomia versus vergonha e dvida 
A fase anal caracteriza, para Erikson, a modalidade muscular- 
-anal. Tal qual na teoria sexual freudiana, a modalidade afetiva  construda anacliticamente pelas aquisies evolutivas 
originais. O sentimento de prazer decorrente da evacuao, quer dos intestinos, quer da bexiga, geram um sentimento de 
bem-estar que Erikson traduz em um sentimento de se dizer bem-feito (1971, p. 72). O suporte orgnico fica elaborado 
em dois nveis. Primeiramente na capacidade de produzir excrementos bem moldados, ou seja, um produto que  central 
na organizao da fantasia  passvel de ser definido e controlado. Embora Erikson no o defina nestes termos, j vimos, 
no volume 3 desta coleo, como a fase anal  a etapa dos primeiros produtos, e como estes esto centralizados nas 
fantasias das fezes. Em segundo lugar, o nvel maturativo j permite um controle voluntrio, primeiro da expulso, depois 
da reteno, paralelo dos quais se desenvolvero os mecanismos psquicos ligados ao controle e  projeo. 
Se do ponto de vista orgnico, reter e expulsar so niodalidades que se completam no trabalho com os produtos 
excrementcioS, do ponto de vista psquico, a zona anal centralizar dois impulsos contraditrios. Diz Erikson: 
A zona anal se presta mais do que qualquer outra  manifestao de um obstinado apego a impulsos contraditrios 
porque, em primeiro lugar,  a zona modal para dois modos conflitantes de aproximao que se devem tornar alternantes: 
a reteno e a eliminao (1971, p. 73). 
A reteno e a eliminao aqui esto tomadas por Erikson como precursores psquicos. Estas modalidades conflitivas 
permearo toda conduta infantil. O negativismo que Stone conceitua 13 nada mais  do que o posicionamento firme de 
reter uma atitude sentida como sua. O 
12 Estamos citando as edies em portugus, as publicaes originais so respectivamente de 1950 (Infncia e sociedade) e 
1968 (identidade, juventude e crise). 
11 Stone, J, Oh. cii. 
aparecimento do no definido por Spitz  atualiza no s a passagem dos processos primrios para os secundrios, como 
tambm  a capacidade de poder bloquear, reter ou rejeitar algo que no quer receber ou dar, portanto  tambm um 
precursor da capacidade de escolher o que quer e um vnculo de escolha de quem se quer. 
Vemos esta batalha que  travada pela autonomia, como o descreve Erikson, associada s organizaes iniciais da escolha. 
A anttese agarrar (reter) e expulsar (projetar) fica correlacionada ao engajamento afetivo em exemplos do prprio 
Erikson: Toda me sabe como, nesta fase, uma criana se aninhar carinhosamente nela e como, de sbito, tentar 
impiedosamente recha-la (1976, p. 109). Ao mesmo tempo, a criana tende tanto a guardar o que lhe pertence como a 
atir-lo pela janela (1971, p. 73).15 
A criana nesta etapa est situada face a um duplo conflito. De um lado, insegura diante da exploso do poder de reter ou 
se apoderar exigentemente das coisas, de eliminar obstinadamente, no se sente dominando parcimoniosamente estas 
aquisies, e se o exerccio destas novas modalidades de relao lhe d prazer, tambm teme com elas destruir a f, a 
confiana e os bons objetos advindos da fase oral. De outro lado, o conflito manifesta-se na relao com as exigncias 
sociais, centralizadas na figura dos pais. O fracasso na reteno ou eliminao que est desenvolvendo, notadamente nas 
relaes de controle esfincteriano, despertar no s sua vergonha, sua dvida e seu sentimento de ser pequena, como 
mobilizar sua raiva e a dos entes queridos. A relao  vlida tanto nos conflitos reais quanto nos fantasiados. Torna-se 
importante que o controle externo, advindo dos pais, seja firme e tranqilizador.  na coerncia da cobrana e na 
capacidade emptica de acompanhar o momento onde a criana pode ser cobrada ou no que se estruturar a segurana 
familiar. Erikson v nas relaes deste momento uma etapa decisiva para a elaborao das propores de amor e dio, de 
cooperao e voluntariedade, de liberdade de auto-expresso e sua supresso. 
O sentimento positivo da elaborao desta etapa  o de autonomia. No s uma autonomia com relao a estar adequado, a 
poder elaborar seus produtos, a ret-los ou do-los livremente, a poder pr-se de p e desenvolver a autonomia muscular, 
como tambm  o primeiro momento em que se firma uma autonomia com relao ao vnculo original de dependncia, ou 
seja,  o primeiro momento em que a criana pode se separar da me. 
14 Spitz, R. O primeiro ano de vida da criana, So Paulo, Editora Martins 
Fontes, 1979. 
Sobre esta fantasia especfica de atirar coisas pela janela, ver o trabalho 
de Freud, Uma recordao da infncia de Gi5eth (1940). 
24 
25 
O fracasso nesta etapa estabilizar os sentimentos bsicos de vergonha e dvida. A vergonha surge quando o 
indivduo no est pronto para ser observado, quando se sente visvel e  inadequado. H como que um desejo 
de sumir, de enfiar-se pelo cho e desaparecer. Estar envergonhado  sentir-se pequeno, e o envergonhamento 
que alguns padres de educao provocam nas crianas alia-se negativa- mente  pequenez que a criana est 
sentindo ao pr-se de p e confrontar-se com os adultos. Erikson mostra que o envergonhamento exagerado 
da criana faz com que ela tente ficar fora da viso dos outros, a fim de agir livremente, manipular e tentar 
sempre levar a melhor, resultando, dessa maneira, numa falta de vergonha disfarada 
(1968, p. 111). 
A dvida  paralela  vergonha; e se esta resulta de um sentimento de se estar frontalmente exposto, a dvida 
se relaciona com um ataque ou um temor difuso, incerto, que parece provir do detrs, ou seja, daquilo que 
no corpo da criana  o continente desconhecido. No  difcil ver nesta relao a presena dos objetos 
anais sentidos como destrutivos. 
Se a etapa anterior alicerou ao nvel individual a confiana, e ao nvel do grupo a f, esta etapa, ao solidificar 
a autonomia, estruturar o princpio da lei e da ordem como salvaguarda do grupo social. Se a etapa anterior 
deixou como sentimento a convico de que eu sou a esperana que tiver e der, a autonomia estruturar o 
sentimento de que eu sou o que posso querer livremente (1976, p. 11 5). A esto as etapas iniciais da 
progresso rumo  identidade. 
1.2.4.3 Iniciativa versus culpa 
A terceira etapa do ciclo evolutivo descrita por Erikson est centralizada na evoluo da estrutura locomotora 
e dos rgos genitais. Aqu podemos sentir que, em relao a Freud, Erikson privilegia a progressiva 
organizao do Ego na constituio do sujeito,  medida que vai definindo por suas interaes (e aquisies) 
com o mundo, ou seja,  medida que as funes do Ego vo-se especializando, a progressiva discriminao 
efetuada sustentar as fantasias afetivas (e sexuais) que se vo constituindo. 
Assim, incorporar o caminhar e o correr, incluir epontaneamente a relao com a gravidade e liberar o sujeito 
para descobrir o que pode fazer, e no apenas o que est fazendo, caracterstica da etapa anterior, esto 
nas bases da progressiva configurao da autonomia (1971, p. 76). Libertada muscularmente, buscando o que 
pode fazer, sua atuao e sua fantasia esto prontas para discriminar e manifestar sua sexualidade, para buscar 
papis dentro do grupo familiar e discri26 
minar os papis que vale a pena assumir ou imitar. Comea a busca;- 
o mundo fora de casa, e os modelos que dentro so criticamente elaborados j configuram os rudimentos da sada 
posterior. 
O aprendizado que se processa configurado como intrusjvc Entra no mundo, entra nas relaes com O Outro, pode 
libertar-se de seu prprio corpo e ver Jos outros. Pode comear a discriminar as diferenas sexuais. Desperta ento para a 
genitaljdad infantil, que est determinada a permanecer rudimentar, uma mera promessa de situaes futuras (1971, p. 
77). O interesse pelo sexo  despertado num sentido um pouco difuso. Isto configura a organizao inicial da sexualjdade 
infantil determinada a sofrer um revs, quer pela limitao fsica, quer pela impossibilidade atual e futura de ser parceiro 
do pai ou da me nas realizaes sexuais. 
Aqui menino e menina iniciam sua diferenciao Se o modelo intrusivo na relao com o mundo corresponde  sexualidaj 
masculina intrusiva, a sexualidade feminina  receptiva. A menina enfrenta, para Erikson tal qual para Freud, o drama de 
se ver sem um pnis e, mais do que isto, o drama de se ver desarmada para o modelo de sexualidade adulta que busca 
conquistas. 
Enquanto o menino tem este rgo visvel, ertil e compreensvel no que se refere a fixar Sonhos de propores adultas, 
o clitris da menina no pode animar sonhos da mesma igua1dad sexual. E ela ainda no tem seios como smbolos 
analogame tangveis de seu futuro; seus instintos maternais ficam relegados  fantasia ldica ou ao cuidado de bebs 
(1971, p. 78-79). 
A sexualidade intrusiva que se desenvolve caracteriza, no menino, um modelo flico-intrusjvo Lana-se para as 
conquistas, organiza metas e busca atingi-las pela conquista muscular e pela penetrao no desconhecido. A menina, por 
no ser possuidora do pnis, adapta-se progressivamn a formas de atuao atravs da provocao e a modelos de no 
deixar escapar ou de armar o lao. Estes modelos So estruturados para a aquisio do sentimento de iniciativa, 
sentimento que Erikson defiae como, de um lado, capacidade para seleo de metas e perseverana para alcan-las 
(1971, p. 79), e de outro, como sentimento de que eu sou o que posso imaginar que serei (1976, p. 122). 
Todas estas relaes esto permeadas pelo desenvolvimento do complexo de dipo. Se h a iniciativa de lanar-se para a 
conquista, existe o surgimento de uma voz interior que dita a interdio. Para Erikson, o fracasso em estabelecer_se como 
algum que pode lutar por suas metas est prenhe de uma voz acusatria que o faz sentir a culpa de crimes que no 
comete, O sentimento bsico de culpa, de ter feito algo proibido, est relacionado com o trabalho da interdio do incesto 
e o limitar por toda a vida. Para Erikson,  ainda a presena de 
27 
culpas irracionais que est na estrutura do ciclo de culpa-violncia, to caracterstico do homem e, no entanto, to 
perigoso para sua prpria existncia (1976, p. 122). Ao nvel das virtudes sociais, a organizao de papis e a definio 
das pertinncias que eles estabelecem constituiro o ethos econmico das relaes humanas. 
1 .2 . 4 .4 Indstria versus inferioridade 
A organizao edpica surge para ser bloqueada. Paradoxo; se de um lado, ensina a amar, organiza as definies iniciais 
de papel sexual, estrutura a busca de metas e o sentido de iniciativa, de outro, os impulsos sexuais que esto na base da 
organizao flica intrusiva devem ser bloqueados. A represso que se sucede ao complexo de dipo fez com que Freud 
caracterizasse este momento como o perodo de latncia, ou seja, de dormncia dos impulsos sexuais. O processo pelo 
qual os impulsos originalmente sexuais so canalizados para tarefas de construo intelectual e social chama-se 
sublimao. E so os processos macios de sublimao que tiraro a criana da tentativa rudimentar de ser um genitor 
precoce, a fim de prepar-la para ser um genitor biolgico. Para Erikson esta tarefa  iniciada quando a criana comea a 
se preparar para ser um trabalhador e um provedor potencial (1971, p. 238). Erikson praticamente no se prende aos 
processos descritos por Freud na soluo do complexo de dipo, mas  clara sua aceitao dos mecanismos ligados  
sublimao e  plasticidade dos instintos sexuais. Ao descrever o piocesso de educao infantil, baseado na sublimao, 
diz: 
Para realizar isso, a educao infantil utiliza as vagas foras instintuais (sexuais e agressivas) que fortalecem os padres 
instintivos e que no homem, justamente por causa de seu equipamento instintivo mnimo, so altamente mveis e 
extraordinariamente plsticas (1971, p. 85). 
A entrada para a vida organizada na etapa anterior compreendia os modelos de posicionamento e relacionamento 
psicossexuais estabelecidos dentro do grupo familiar. Os modelos anteriormente estabelecidos devem agora ser 
reprimidos, devem tornar-se latentes, ou seja, devem adormecer at que a puberdade os chame para a organizao da etapa 
genital. A busca de atuaes fantasiadas ao nvel sexual deve ceder lugar  busca de domnio e compreenso das relaes 
impessoais do mundo. Deve desenvolver um sentido de indstria, isto , ajustar-se s leis inorgnicas do mundo das 
ferramentas (1971, p. 238). 
No  difcil entender por que muitas crianas se desagregam exatamente na entrada deste perodo. O impulso para 
manipular o 
28 
mundo, domin-lo, fixar a perseverana em se prender s tarefas, em descobrir-lhes o processo e em realiz-
las pode ser frustrado, tanto por no ter vindo das etapas anteriores com um desenvolvimento que lhe permita 
enfrentar o mundo, quanto por no possuir uma adequao s tarefas que lhe so impostas e que a criana 
possa realizar. O sentimento da inadequao, que Erikson define como inferioridade, lhe trar o desespero de 
no compartilhar do status de produtor, o alienar do grupo externo  famlia, com quem aprende no s a 
dominar o mundo, mas tambm de quem tem os suportes iniciais para sair dos vnculos infantis de casa. 
Perder a esperana desta associao industrial pode faz-la regredir  rivalidade familiar mais segregada, 
menos consciente do instrumental, da etapa edfpica (1971, p. 239). Ou seja, se pensarmos em termos 
freudianos, as frustraes obtidas no desempenho intelectual e social da latncia faro com que a criana 
regrida a pontos de fixao estabelecidos em etapas anteriores  soluo do complexo de Edipo. 
Esta etapa define para Erikson o ethos tecnolgico de uma cultura. Comea a estruturar os juzos sobre a 
diviso do trabalho, da capacidade individi de realizao e das diferenas de oportunidades. Para Erikson, 
duas ameaas bsicas podem interferir na constituio pessoal do sentimento de identidade que se organiza. A 
primeira  o estudante sentir que os preconceitos provenientes da raa ou do nvel social decidem muito mais 
o que ele pode fazer, do que o seu desejo ntimo de realizar. O outro perigo  que se aceita o trabalho como 
sua nica obrigao, e o produtivo como seu nico critrio de valor, pode considerar-se um escravo 
conformista e inconsiderado de sua tecnologia e daqueles que esto em situao de explor-la (1971, p. 240). 
O sentimento bsico de indstria, oriundo desta crise psicossocial, contribuir para a formao da identidade 
ao estabilizar o sentimento de que eu sou o que posso aprender para realizar trabalho (Erikson, 1976, p. 
128), ou seja, o sentimento de que se pode assumir como um conquistador e realizador, no s nos planos da 
fantasia como ocorria nas etapas anteriores, mas na construo de um mundo real. No fracasso, o sentimento 
de inferioridade estabelecido far com que ou se submeta s manipulaes externas para buscar afeto, ou 
regrida para o ncleo familiar, buscando ser o beb que recebe afeto independentemente do que possa fazer. 
1.2.4.5 Identidade versus confuso de papis 
Com a puberdade, encerram-se as etapas infantis de desenvolvimento. Dentro do modelo de Erikson, 
podemos dividir suas oito etapas 
29 
J 
1 
evolutivas em trs momentos, O primeiro incluindo as quatro crises iniciais nos estgios da infncia, ou seja, as etapas 
parciais de desenvolvimento, cada qual estabelecendo um sentimento ou modelo bsico de relao com o mundo, isto , 
contribuindo com etapas parciais para a formao da identidade. O segundo  a configurao da identidade propriamente 
dita, momento onde o sujeito definir realmente quem ele . O terceiro constitui as trs etapas finais da vida, onde cada 
uma delas corresponde a um momento de produo, quer ao nvel interno, quer ao nvel da contribuio social. 
Para Erikson, a identidade se configura em trs reas bsicas de definio, ou seja, a identidade sexual, a profissional e a 
ideolgica. A identidade sexual  a definio genital de seu papel, definio esta que j estabelecera suas bases na 
soluo da etapa flica, mas que agora estruturar o Ego  o sentido de mesmidade e continuidade decorrente de uma 
definio autntica e original. A segurana do papel sexual assumido  o que lhe permitir estabelecer as filiaes 
caractersticas das etapas seguintes. Erikson, por privilegiar o nvel de construo do Ego, no se detm nas anlises de 
retomada do Edipo e luta contra o incesto para a definio final da heterossexualidade dirigida para fora de casa. Prefere 
analisar os modelos projetivos caractersticos dos anos adolescentes, onde a figura amada  inicial- mente uma depositria 
da projeo do que o amante se imagina. Progressivamente a sua nagen qu  refletida pelo outro  aclarada, at que ele se 
possa conhecer e definir (1976, p. 133). No  difcil entender o alcance do modelo de Erikson. E estando seguro do que 
se , que se pode finalmente buscar a relao com o outro sem contaminaes; ou seja, o outro no  visto em relaes 
projetivas, como extenso do eu, mas sim como um outro com quem se relacionar. Pode-se at suportar as diferenas, 
entend-las e conviver com elas, pois que as divergncias j no mais ameaam os prprios valores, seguro que est o 
sujeito por suas aquisies. 
Um segundo nvel se refere s aquisies da identidade profissional. Eu sou em grande parte aquilo que fao. Pensamos 
que o conceito de provedor externo que Erikson define como elemento bsico da maternagem est ligado  organizao 
evolutiva do sentimento de que s pode ter ou s pode dar aquele que faz. A realizao profissional  o que dar ao 
indivduo a capacidade de sentir-se membro ativo e produtivo dentro do grupo social;  o que o configurar como um 
membro independente e simultaneamente co-participa- dor na construo de bens, portanto da realizao do mundo 
material. Dos modelos imitativos anteriores que a criana desenvolve na relao com os pais, portanto das identificaes, 
o indivduo emergir para a identidade, ou seja, para a configurao original de uma escolha que 
tambm lhe definir os sentimentos de mesmidade e continuidade Poder estar seguro no s do que , mas 
do que continuar sendo. 
A escolha de uma profisso  fundamental na normalizao das relaes com o mundo. Num nvel mais 
concreto,  claro, entende-se que, em parte, sou aquilo que fao. Num nvel mais profundo, entendo que a 
opo profissional  basicamente uma reparao, ou seja, defino realizaes no mundo externo que 
correspondem em geral s incertezas ou fraquezas que tenho em fantasia. Produzir e construir fora age como 
um elemento compensador de minhas falhas. E sobre este sentido bsico de falta que eu me construo, e que, 
num todo, a civilizao  construda. Neste sentido estou usando o conceito de carncia num nvel que me 
parece menos viciado que o de sublimao. Realizamos fora, no porque sentimos que nos resta algo para 
transferir, mas porque a falta que nossa fantasia elabora realiza-se em outro plano adaptativo. 
Um terceiro nvel de organizao da identidade  a definio ideolgica, O adolescente, em permanente 
reconstruo interna, deve acompanhar a reconstruo do mundo e posicionar-se Para Erikson a energia que 
permite as revolues e rupturas com os modelos que no mais servem provm do fervor da adolescncia. Diz 
Erikson: A adolescncia , pois, um regenerador vital no processo de evoluo social, pois a juventude pode 
oferecer suas lealdades e energias tanto  conservao daquilo que continua achando verdadeiro como  
correo revolucionria do que perdeu seu significado regenerador (1976, 
p. 134). 
A resoluo dos trs nveis da identidade dar ao indivduo a segurana necessria para as etapas posteriores 
onde, definido o que , poder se projetar como um realizador. A confuso de papis, perigo desta etapa, o 
imobilizar numa indefinio onde as filiaes estaro ameaadas, e com elas, sua verdadeira capacidade para 
a genitalidade num sentido freudjano. 
A vitria desta etapa de formao da identidade  deixar o sentimento bsico de que eu sou (1976, p. 138). 
1. Marcia e a operacionalizao da identidade 
Joseph Marcia, continuador das idias de Erikson, nos apresenta um interessante modelo operacional de 
trabalho com a aquisio da identidade. Parte das subdivjses bsicas de Erikson para a aquisio da 
identidade, ou seja, as reas sexual, profissional e ideolgica, especificando que a ideologia  configurada em 
dois nveis, ou seja, o poltico e o religioso, e tenta analisar as etapas ou momentos de aquisio destes setores 
da identidade. 
30 
31 
Primeiramente, Marcia verifica que cada aquisio  realizada em duas etapas. Numa primeira, o indivduo 
passa por um momento de crise, ou seja, por um momento onde vrias possibilidades se descortinam, onde se 
sente atrado por mais de uma opo, onde pode questionar as opes at que a escolha que lhe faa sentido se 
defina. Num segundo momento,  necessrio que se realize um engajamento com a opo efetuada, ou seja, 
que sinta sua escolha incorporada ao seu Ego, e que a preserve e lute para sua realizao. Crise e engajamento 
seriam, portanto, etapas sucessivas da aquisio de uma rea de identidade. 
No plano profissional isto implicaria em avaliar as vrias opes atrativas, desde os modelos que 
naturalmente so impostos ou sugeridos dentro de casa, at os modelos que correspondam a requisitos mais 
parciais de sua fantasia. Quer ser mdico como o pai, mas resolve se interessar por comunicao. Oscila entre 
os seus interesses e o de outro. A crise que s vezes eclode em casa  decorrente, em geral, muito mais de seu 
conflito interno do que de presses reais. A abertura para a rea de humanas po& indicar at uma terceira 
po, por exemplo, Economia ou Direito. Por fim define-se, e, ao ingressar na faculdade, j se sente um 
profissional da rea que escolheu. Houve o momento de crise e o posterior engajamento. A identidade 
profissional est adquirida. 
No plano sexual, o adolescente vem com modelos dados pela estrutura familiar. Deve haver um momento em 
que esta estrutura  questionada, em que se rompe com o modelo dado e o questionamento  aberto para 
outras opes. Marcia considera que, em nossa cultura, a temtica das relaes sexuais pr-maritais (ou o tabu 
da virgindade) est no mago das reflexes adolescentes sobre os modelos de conduta sexual. O momento do 
questionamento inicia a crise, prenhe de indecises para uma e outra postura, at que a definio seja 
estabilizada. O engajamento se caracterizaria em no s definir o modelo, mas em senti-lo como sendo 
realmente sua opo de vida, portanto em assumi-lo com certa serenidade. No importa se depois do 
questionamento o jovem mantm o modelo dos pais, ou se opta por outro. Importa sim que, aps a crise, haja 
definio e engajamento pessoal. 
No plano ideolgico, Marcia especifica que o jovem deve travar duas batalhas. Uma pelas definies 
polticas, ou seja, definir qual  o modelo de mundo real no qual quer viver e participar pesso dmente para que 
sua opo tenha a perspectiva de se realizar. O termo poltico  para ele amplo e engloba as atuaes desde 
poltica comunitria, passando pelos movimentos estudantis, at as filiaes poltico-partidrias. De outro 
lado, o mundo virtual ou transcendental  definido pela religio. Existncia ou no de Deus, perspectivas de 
uma vida espiritual futura esto no centro destes questioname5 Tambm no importa qual o modelo de f ou 
de atesmo aps a crise. Importa que as perspectivas transcendentais estejam assumidas. 
Pesquisando como os adolescentes ultrapassam estas etapas, Marcia conclui que existem quatro 
posicionamentos bsicos diante da aquisio da identidade. Denominados por ele moratrio, aquisidor, 
impedido e difuso. 
O moratrio  em geral um estdio caracterstico do adolescente inicial. Caracteriza por estar dentro da crise, 
mas os engajamentos ainda no esto efetuados. Por exemplo, j diz o que pretende estudar, mas fica indeciso 
ou muda de opinio diante de outras perspectivas atraentes. Rompe com o tabu da virgindade imposto pelos 
pais, mas reluta ante a idia de se casar com uma mulher que no seja virgem. Rompe com a religio familiar, 
mas a ela recorre nos momentos de crise. Oscila entre atitudes autoritrias e liberais nas preocupaes 
polticas. O moratrio est, portanto, exercitando um direito que lhe  socialmente dalo de proteger suas 
escolhas, at que as opes se definam e sejam sentidas em consonncia com seu ser. O perigo  eternizar-se 
em moratrio, eterno primeiro-anjsta das faculdades, oscilante entre posies partidrias e religiosas, ambguo 
com sua postura sexual e a dos outros. 
O aquisidor caracteriza_se pelo que discutimos nas subdivises das vrias reas da identidade e dos conceitos 
de crise e engajamento. Tendo ultrapassado a etapa moratria, assumiu seu modelo nas vrias reas de 
definio de identidade. E o tipo considerado maduro e sadio. Pode enfrentar as crises, questionar as opes e 
seguir sereno e seguro do que  e do que quer. 
O impedido caracteriza_se por ter efetuado os engajamentos sem ter antes passado pela crise. Na verdade no 
vive um modelo de identidade, mas de identificao com os modelos parentais. Num questionamento dir: 
Venho de uma famlia de mdicos. Em casa sempre foi um ideal ajudar os outros. J desde pequeno que eu 
sabia que iria ser mdico. Nunca pensei em outra profisso. Sobre os valores sexuais, sempre dar as 
referncias de suas atitudes a partir dos modelos de casa. A religio e a ideologia poltica tero a mesma 
origem. Deve-se frisar que necessariamente as coisas no so to lineares. Marcia exemplifica como uma 
carreira militar, onde os outros decidem por ele, pode ser um posicionamento impedido, mantenedor das 
relaes de casa onde tudo era decidido por ele. Embora Marcia no faa maiores extrapolaes, acreditamos 
que grande perigo de impedimento seja a ecloso de crises tardias, onde ja no mais haver flexibilidade para 
novos posicionamentos, restando 
32 
33 
um sentimento de que as escolhas de vida foram falsas, e no h mais tempo para refaz-las. 
O difuso nem passou pela crise nem se engajou.  o indivduo para quem em geral s importa viver o 
momento. No h preocupaes com sua continuidade e mesmidade. Vive e dana de acordo com a msica. 
No  necessariamente um promscuo ou um marginal, mas est prximo de encaminhar-se para eles. Marcia 
diferencia, entre os difusos, dois tipos caracterizados como o bem-adaptado e o mal-adaptado. O bem-
adaptado se caracteriza por compreender bem as regras do jogo social e,  medida que no possui valores 
pessoais que o delineiam, pode naturalmente moldar-se s circunstncias para obter todos os proveitos 
pessoais que forem possveis. Trabalha com o que d mais dinheiro no momento, seja algo lcito ou no. Os 
outros posicionamentos tambm so amoldados na tentativa de buscar proveitos prprios. O mal-adaptado  
aquele que, alm da falta de valores, isola-se do grupo social. Em nosso meio, muitos pseudo-arteSeS, ou 
seja, aquees entortadores de arame, freqentemente sem origem e destino definido, fazem parte cio que 
Marcia define como o difuso mal-adaptado. 
1.2.4.6 Intimidade versus isolamento 
Esta  a primeira das trs estapas que Erikson classifica como para alm da identidade. O sentimento bsico 
de eu sou, estabelecido na etapa anterior, dar agora ao adulto inicial a perspectiva de transcender o que , 
de associar sua identidade a outras, quer na filiao do amor, quer em filiaes mais concretas, sem que se 
sinta ameaado de invaso ou controle, e sem tentar impor projetivamente aos outros seu modelo, visto que 
s se busca reduzir o outro ao eu se o eu se configura incerto, inseguro e ameaado pelo que  diferente. 
Erikson chama de intimidade a capacidade de confiar a filiaes e associaes concretas e de desenvolver 
a fora tica necessria para ser fiel a estas ligaes, mesmo que elas imponham sacrifcios e compromissos 
significativos (1971, p. 243). 
A intimidade corresponde, para Erikson,  entrada na verdadeira genitalidade proposta por Freud, abrangendo 
desde a plenitude do orgasmo, no num nvel concreto, mas no nvel da mutualida le da relao com o 
parceiro amado e de outro sexo, at a regulagem dos ciclos pisocossOciais de vida, onde esto compreendidas 
as relaes maduras de confiana mtua. de regulagem mtua dos ciclos de trabalho, procriao e recreao e 
da preocupao com a descendncia e seu desenvolvimento. 
Embora a proposta de Erikson seja acentuada a partir do ponto de vista freudiano, ou seja, h uma nfase na 
normalizao da sexualidade corno tarefa bsica de evoluo, o modelo pode ser transposto para as duas 
outras reas de configurao da identidade, derivadas que so da genitalidade original. Assim o 
estabelecimento de filiaes ao nvel do amor  o modelo bsico das filiaes a serem estabelecidas ao nvel 
do trabalho e da ideologia. A estabilidade da intimidade ao nvel genital, que Erikson explica nos seguintes 
termos: Assim, as relaes sexuais satisfatras fazem o sexo menos obsessivo, a supercompensao menos 
necessria, os controles sdicos suprfluos (1971, p. 244), pode ser transposta para os vnculos naturais e 
prazerosos com a opo profissional, que se torna realizao e no defesa, e com os vnculos poltico-
religiosos. 
O sentimento bsico de conquista desta etapa transcende ao eu sou anterior, ampliando-se para o ns 
somos aquilo que amamos 
(1976, p. 138). 
A contrapartida da intimidade  o isolamento, o distanciamento, uma tendncia a se pr  parte das pessoas e 
do mundo, no raro tentando destruir no s suas caractersticas pessoais, porque inseguras e perigosas, como 
as do outro, porque invasoras e ameaadoras. 
1.2.4.7 Generatividade versus estagnao 
Para Erikson, o perodo que compreende a vivncia do adulto  caracterizado pela capacidade de produzir. 
Num sentido original, o de produzir vida e continuar nela o trabalho humano de elaborao da cultura;  o 
perodo que define o homem como aquele que ensina, portanto, que domina as relaes maduras da cultura.  
o perodo sobre o qual repousam a construo e a perpetualizao do patrimnio cultural humano. 
Os sentimentos de criatividade e produtividade caractersticos deste perodo so sinnimos do ponto de 
partida original, ou seja, da generatividade. A finalidade ltima da vida  sua perpetuao, e ao nvel humano, 
a reproduo no encerra o ciclo, mas lhe d o ponto de partida, onde o reprodutor dever ser capaz de 
realizaes, a fim de se tornar o provedor externo capaz de manter a prolongada infncia da prole, e dever 
ser capaz de transmitir a tecnologia e a ideologia de mundo que garantam a continuidade da civilizao. Nos 
termos de Erikson, a segurana e a expanso gradual dos interesses do Ego permitiro um investimento 
libidinal naquele que est sendo gerado (1971, p. 246). Este  o momento em que a ponte entre a reproduo e 
a produo se estabelece como caracterstica humana, e nele Erikson v o caminho terico para a integrao 
de teorias 
35 
34 
econmicas e psicolgicas, mais especificamente para uma integrao Freud-Marx (1971, p. 247). O fracasso na 
generatividade conduz a estagnao a uma espcie de retorno a uma pseudo-intimidade, onde os vnculos ficam 
permeados por uma sensao penetrante de estagnao e infecundidade pessoal (1971, p. 246). 
1.2.4.8 Integridade do Ego versus desesperana 
A etapa final da maturidade humana  descrita por Erikson como a etapa da sabedoria. S ser atingida por aquele que se 
aproveitou dos triunfos e desiluses das etapas anteriores para crescer, tornar-se um criador de outros seres humanos e 
gerador de produtos e idias (1971, p. 247). Este sentimento de integridade, de consonncia com um valor cultural, com 
um patrimnio humano do qual pode conhecer a limitao do seu ciclo pessoal de vida e assumir sua contribuio para a 
continuidade humana,  definido por Erikson como integridade do Ego. A integridade se torna um amor psnarcisista 
do Ego humano  no do eu  como uma experincia que transmite uma certa ordem e sentido espiritual do mundo, no 
importa o que isto tenha custado.  a aceitao do prprio e nico ciclo de vida como alguma coisa que tinha que ser e 
que, necessariamente, no admitia substituies: significa assim um novo, um amor diferente com relao aos prprios 
pais (1971, p. 247). Parafraseando Caldern, o sentido de honra e integridade desenvolvido se torna o patrimnio da 
alma, aquilo que lhe permite enfrentar a limitao de seu ciclo individual de vida com serenidade, posto que a morte no 
encerrar a cultura que assumiu, desenvolveu e ensinou aos descendentes. 
Por isso o temor da morte  a concretizao da desesperana, ou seja, o sentimento subsistente  o de que no h mais 
tempo para recomear e no h sentido no que foi feito. O sentimento de descontentamento consigo mesmo eclode, e 
muitas desestruturaes emocionais da velhice tm sua origem neste sentimento de fracasso vivencial. Acreditamos que 
esta sntese da etapa final de Erikson seja elemento eurstico para a reflexo sobre a sensibilidade. 
No encontro melhor posicionamento para encerrar a epignese da identidade do que a correlao estabelecida por 
Erikson entre a maturidade e a infncia. 
E parece possvel parafrasear, ainda mais, a relao entre a integridade 
adulta e a confiana infantil, dizendo que as crianas sadias no temero a 
vida se seus antepassados tiverem integridade bastante para no temer a 
morte (1971, p. 248). 
1.2.5 Knobel e a sndrome da adolescncia normal 
Mauricio Knobel, 16 psicanalista argentino atualmente radicado no Brasil, tem dedicado inmeros trabalhos  
adolescncia, particularmente aos conflitos normais e patolgicos estabelecidos neste perodo. Em seus trabalhos clnicos 
freqentemente atendia adolescentes onde, a prjorj, havia como queixa a existncia de comportamentos considerados 
anormais ou patolgicos, mas que, durante o atendimento, pde notar que eram apenas externamente patolgicos. Numa 
viso interna do dinamismo pessoal, estes comportamentos poderiam ser considerados como normais e faziam parte de 
um momento evolutivo. 
Partindo das idias de Aberastury, onde o conflito para tornar-se adulto  desenrolado paralelamente ao luto pela perda da 
estrutura infantil, Knobel conclui que no se pode atingir a maturidade antes de se passar por um certo grau de conduta 
patolgica, onde as relaes de infncia, oportunidades e perspectivas da genitalidade se entrecruzam. Vrios destes 
aspectos patolgicos da conduta adolescente, j estudados por ele em outras publicaes, foram sintetizados num 
conjunto de sintomas ou caractersticas que ele define como a sndrome da adolescncia normal. Faremos a seguir uma 
sntese destas caractersticas descritas por Knobel. 
1.2.5.1 Busca de si msmo e da identidade 
Knobel toma basicamente o modelo de Erikson para definir a constituio da identidade, mas reporta-se a modelos um 
pouco mais ligados  organizao da fantasia. A definio de identidade que lhe fica central  tomada de Grimberg, que 
diz que o sentimento de identidade implica a noo de um eu que se apia essencialmente na continuidade e semelhana 
das fantasias inconscientes atribudas, primordialmente, s sensaes corporais, s tendncias e afetos em relao com os 
objetos do mundo interno e externo e s ansiedades correspondentes, ao funcionamento especfico em tipo e intensidade 
dos mecanismos de defesa e ao tipo particular de identificao assimilada resultante dos processos de introjeo e 
projeo. 
Vemos ento que, se, de um lado, a progressiva construo psicossocial do Ego (nos termos de Erikson)  levada em 
conta, e a definio dos modelos de identidade dar o sentimento de mesmidade e continuidade que estabilizar o 
sentimento de definir quem 
16 Aberastury, A. e Knobel, M. La adolescencia normal. Buenos Aires, Paids, 
1976. 
36 
37 
sou eu, de outro lado, o desenvolvimento das relaes objetais, a construo da imagem e do esquema corporal, as 
defesas e fantasias, e, sobretudo, o luto pela perda da infncia e definio da genitalidade esto presentes na formulao de 
Knobel. 
Como conseqncia destes processos, o que aparece para Knobel, ao nvel sintomtico,  a caracterstica adolescente de 
adotar identidades diferentes durante este processo crtico que antecede suas definies. Estas mltiplas identidades 
constituiriam para o adulto um processo patolgico, mas fazem parte de um quadro normal da adolescncia. Isto ser 
vlido tambm para as outras caractersticas a serem discutidas, da o nome sndrome normal que lhes d Knobel. Para 
ele, estas diferentes identidades se subdividiro basicamente em trs grupos: 
a) Identidades transitrias  aqueles modelos de conduta que so vividos pelo adolescente, em geral como decorrncia de 
uma aquisio. Por exemplo, Knobel cita a seduo de caractersticas at um pouco histricas que a menina assume 
quando se julga mulher. No  difcil imaginarmos a freqncia ou o nmero de vezes em que tais modelos so 
assumidos. O jovem que aps uma vitria esportiva passa semanas vivendo e se sentindo como um atleta, ou os momentos 
de modelos intelectuais aps um sucesso obtido. 
b) Identidades ocasionais  o adolescente vive quase que a construo de um novo modelo de ser diante de situaes novas 
com as quais se defronta. O modelo que usa para conquistar a namorada, a postura que assume no primeiro baile, o 
modelo que vive no primeiro dia de trabalho. Em nveis acadmicos  inclusive curioso ver como os primeiro-anistas das 
faculdades assumem (e vivem) um esteretipo de universitrios, to logo transponham o vestibular. 
c) Identidades circunstanciais  cada adolescente tambm tende a viver personalidades distintas, em funo do grupo 
circunstancial ao qual est ligado. Pode ser agressivo na escola, piedoso na igreja, rebelde em casa, submisso no grupo de 
companheiros. De novo fica claro que estas condutas aparentemente to discrepantes, e que consideraramos patolgicas 
no adulto, so aceitas como normais dentro da moratria social que  dada ao adolescente. 
Estas vrias identidades tanto se alternam como coexistem no mesmo perodo. Refletem tanto a luta pela aquisio do eu, 
pela definio da identidade adulta que est sendo buscada, quanto refletem o luto pela perda da infncia. O adolescente 
oscila ento entre retomar modelos perdidos no passado e experienciar modelos virtuais. E da experienciao dos modelos 
virtuais que ele progressivamente se apresentar como adulto. Portanto, experimentar vrios modelos de identidade neste 
momento, no  patologia, mas sim lutar pela 
construo da normalidade, O adolescente precocemente definido seria o patolgico. Estaria dentro de 
identificaes e defesas rgidas que no permitiriam a busca da verdadeira identidade. 
1.2.5.2 A tendncia grupal 
Inseguro quanto ao que , o grupo serve como um processo defensivo que o ajuda a configurar-se. A 
uniformidade que o grupo traz lhe atualiza a segurana de saber quem . Knobel define que h um processo 
de superidentificao macia, onde todos se identificam com cada um. No  difcil ver que, se de um lado, 
estas filiaes esto a servio da segurana emocional, de outro lado, o grupo adolescente pode ser induzido a 
identificar-se com promessas mgicas de valor e continuidade, e se ver manipulado dentro de contextos 
eticamente duvidosos, como o foi a trgica juventude hitlerista, nas promessas de raa superior e de um Reich 
que duraria mil anos. 
Esta tendncia grupal est ainda a servio de outros processos de desenvolvimento psicolgico. A 
dependncia do grupo , na verdade, a transferncia de parte da dependncia familiar para o grupo, e isto  
uma etapa intermediria para a independncia, ou seja, o grupo ajuda o adolescente a sair de casa, O lder ao 
qual, em geral, primeiro o adolescente se submete e depois tenta derrubar fica como um modelo paralelo de 
submisso e questionamento dos pais. E o grupo tambm o ajuda a vivenciar, na prtica, o exerccio do bem e 
do mal. D-lhe uma retaguarda para experienciar a crueldade e a violncia,  medida que a culpa fica 
atribuda ao grupo em si e no ao indivduo. Por isso o adolescente solitrio, to comportado, entra em 
atuaes destrutivas quando com o grupo. Se estes episdios se prolongassem, haveria o estabelecimento de 
comportamentos ou modelos psicopticos, mas a caracterstica que os torna normais para a adolescncia  a 
sua brevidade. Acreditamos que evolutivamente eles ajudam o adolescente a defrontar-se om suas fantasias 
destrutivas, para em seguida poder domin-las. 
1.2.5.3 Necessidade de intelectajjzar e fantasiar 
E dado corrente que  adolescente vive construindo teorias mgicas e erguendo castelos no ar, e no 
raramente temos at a impresso de que os habitam. Para Knobel o ponto central do processo psicodinmico 
que leva o adolescente a intelectualizar e fantasiar  a luta que trava contra  perda do corpo de infncia, as 
regras que organizavam este perodo e as vivncias infantis com os pais. Perde o modelo de proteo e 
onipotncia infantil, perde a bissexua 38 
39 
lidade da identidade infantil. Perde o que era e no pode ainda construir o que ser. S o pode fazer na 
fantasia. Ouando neste plano se torna um construtor de teorias ou de devaneios, isto est reparando a angstia 
das perdas que vive. No  o mundo que ele quer reconstruir ou salvar, mas  a si que deseja construir e 
estabilizar. Knobel mostra que este  um dos motivos bsicos que leva o adolescente s manifestaes 
artsticas e culturais. 
1.2.5.4 Crises religiosas 
 normal para o adolescente oscilar entre posies religiosas ou msticas bastante acentuadas e perodos onde 
h um posicionamento atesta absoluto. Para Knobel, h dois processos bsicos no suporte desta relao. Em 
primeiro lugar, h as transies do corpo e correspondentes fantasias que o jogam na busca externa ou 
fantasiada de algo definitivo e duradouro. J vimos que estas alteraes esto na raiz de vrias das condutas 
adolescentes. Em segundo lugar, Knobel nos coloca que o adolescente comea a enfrentar a separao 
definitiva dos pais e tambm a possvel morte dos mesmos (ob. cit., p. 66). Aqui podemos associar as idias 
de perda dos pas de infncja de Aberastury e Knobel s fantasias de morte presentes na transio de geraes, 
que estudamos ligadas s fantasias da gestao (vide vol. 2 desta coleo), ou seja, a perspectiva que o 
adolescente tem de tornar-se um progenitor, de constituir a gerao que domina, atualiza a fantasia de que a 
gerao anterior est indo. Parece que, em termos atvicos, a finalidade ltima da vida  a preservao da 
vida. Se uma gerao est-se preparando para reproduzir, a fantasia bsica  que a atual gerao de 
reprodutores j cumpriu sua tarefa e encaminha-se para o fim. Podemos dizer que neste momento o indivduo 
descobre a morte, face s fantasias de morte dos pas, e, com a vinda do primeiro filho, a redescobre 
fantasiando sua prpria morte. 
De qualquer forma, toda segurana que era dada pela imagem dos pais durante a infncia fica perdida. E para 
Knobel isto explica como o adolescente pode chegar a ter tanta necessidade de fazer identificaes projetivas 
com figuras muito idealizadas. Deus, seja qual for o modelo que assuma,  substituto paterno nas relaes de 
proteo e segurana. Para Knobel as crises de religiosidade correspondem a estes momentos de busca de 
segurana, e as crises reinvindicatrias niilistas e atestas correspondem tambm s atitudes defensivas ligadas 
s imagens parentais, internalizadas com caractersticas persecutrias. Neste aspecto discordamos um pouco, 
preferindo entender que o conflito de busca de dependncia versus luta pela independncia que  travado com 
os pais, reflete-se simbolica ment 
na relao com Deus. Nos momentos de segurana pode questionar os pais e a f como uma postura inicjal de 
autopreservao de seu lugar. Poder at depois aceit-los, mas comea a se firmar no questionamento. 
Acreditamos que, nos momentos de incerteza, voltar  segurana da f ou da casa paterna. Vimos, por vrias 
vezes, adolescentes que se declaram ateus rezarem em vspera de prova, pedindo ajuda. Parece-nos que tanto 
os momentos msticos quanto os de negao da f so oscilaes normais, uma vez que simbolizam os 
embates domsticos travados pela independncia. O patolgico seria a indiferena, o niilismo, porque, se o 
conflito est reproduzindo a crise de crescimento vivida na relao com os pais, a indiferena s pode refletir 
uma internalizao pobre e fraca das figuras parentais. 
1.2.5.5 Desestruturao temporal 
Para Knobel, a elaborao do tempo  uma das mais importantes aquisies elaboradas na adolescncia. Est 
no centro da elaborao dos lutos tpicos do perodo. Est entre a elaborao das perdas da infncia, do corpo 
infantil, da dependncia parental, e as perspectivas ainda incertas da construo futura, entre as quais esto as 
angstias da morte dos pais e da prpria morte. 
O adolescente imobiliza o tempo, reduzindo ao presente o passado e o futuro, tentando preservar as 
conquistas passadas e apaziguar as angstias vinculadas ao futuro. O tempo vivencial, em oposio ao 
cronolgico, se torna dominante, O pensamento temporal assume caractersticas tpicas do processo primrio, 
uma vez que est mais centralizado no desejo do que na realidade. Knobel d um exemplo muito tipico. Uma 
adolescente no se preocupa em estudar para a prova, porque s vai ser amanh, mas desespera-se porque 
seu vestido de baile no est pronto e o baile j ser no prximo mes 
Os processos no so isolados e Knobel considera que as angstias da adolescncia, as exigncias biolgicas 
que se organizam, fantasiando a concretizao do incesto, e a sndrome de difuso de identidade que se 
desenvolve atualizam ncleos psicticos na vivncia adolescente, e a difuso temporal medeia a emergncia 
destes ncleos. 
O desenvolvimento da capacidade madura de estar s parece estar na base da organizao temporal. As 
vivncias de solido, to caractersticas e angustiantes neste perodo, levaro  superao dos lutos pela 
infncia e pela elaborao do futuro. 
Knobel conclui que quando ele pode reconhecer um passado e formular projetos de futuro, com capacidade 
de espera e elaborao no presente, supera grande parte da problemtica da adolescencia 
41 
40 
1.2.5.6 A evoluo sexual desde o auto-erotismo at a 
heterossexualidade 
Filiado aos modelos de M. Klein e A. Aberastury, Knobel v a organizao da sexualidade adolescente como uma 
retomada evolutiva das etapas sexuais anteriores, notadamente o complexo de dipo precoce, estruturado na segunda 
metade do primeiro ano de vida, e 
o dipo clssico da fase flica. A evoluo sexual do adolescente fica ento condicionada, em primeiro lugar, pela 
imagem positiva ou negativa da fantasia que elaborou dos pais em cena primitiva, ou seja, sexualmente unidos, durante a 
passagem da posio esquizoparanide para a depressiva. Vamos entender melhor isto:  aceito que no incio da posio 
depressiva a criana elabora pela primeira vez a figura do pai como um terceiro elemento que interfere na relao antes 
dual e simbitica estabelecida com a me. Neste momento haveria a primeira imagem da existncia dos pais unidos, 
unio esta permeada por caractersticas basicamente orais (mas tambm anais e genitais), que pode apresentar-se como 
uma representao amorosa, quando os pais so basicamente sentidos como bons, terrorficos ou maus. Se na fantasia 
infantil a criana est prenhe de dio, fantasia ataques aos pais e como defesa projetiva v os pais como destrutivos, 
quaisquer ligaes entre eles ser vista como sdica e destrutiva.  destas angstias iniciais que permanece a fantasia do 
pnis como um elemento destrutivo e destrudo, ou do interior feminino com as mesmas caractersticas. Particularmente, 
acreditamos que  sobre estas angstias iniciais que se constituiro as cises to tpicas dos neurticos e de algumas crises 
na adolescncia onde o pnis e a vagina so considerados como elementos externos ao indivduo. Isola-se, o que  
perigoso, e a decorrente relao sexual s poder ser configurada como masturbatria, porque no haver uma integrao 
de dois parceiros, mas a tentativa de satisfao de dois rgos genitais. 
Nenhuma etapa da vida  ultrapassada absolutamente sem angstias. A adolescncia, ao organizar biologicamente a 
configurao real da sexualidade, retomar as angstias passadas para buscar agora uma soluo genital definitiva. 
Portanto alguns momentos de vivncia esquizoparanide estaro presentes na sexualidade adolescente. O temor ligado ao 
ato sexual poder surgir; os genitais sero progressivamente liberados destas angstias primitivas e integrados na imagem 
17 Dentro do modelo de M. Klein e A. Aberastury. Em outros modelos 
tericos as relaes podem ser um pouco diferentes. Por exemplo, para Lacan, 
o pai, como terceiro elemento e representante da lei, surge com o aparecimento da linguagem, portanto no incio do 
segundo ano de vida. 
42 
corporal. A masturbao tem importante finalidade nesta integrao, permitindo um orgasmo inicialmente 
com caractersticas bissexuais e infantis, ou seja, como os dois rgos, masculino e feminino, esto 
configurados pelo mesmo indivduo, a fantasia de bissexualidade (e de onipotncia) ainda persiste, at que 
atravs da superao das angstias, da integrao do genital e da aceitao do prprio sexo, o indivduo possa 
voltar-se para a heterossexualjdade adulta. 
Knobel v a sexualidade adolescente como exploratria, ou seja, ainda no integra os prazeres da mutualidade 
e as responsabilidades concomitantes, caractersticas da genitalidade. Se associarmos esta tendncia 
exploratria aos conflitos ligados  superao_manuteno da bissexualidade, no ser difcil entendermos 
que os eventuais episdios homossexuais ocorridos na adolescncia, quando no ligados a estruturas 
patolgicas anteriores, no apresentaro conseqncias s rias. 
1.2.5.7 A tiwd social reivjndjcatrja 
E senso comum considerar o adolescente como um rebelde s normas sociais. Nos itens anteriores discutidos 
por Knobel j ficam delineadas as estruturas psicolgicas que levam ao sintoma caracterstico de oposio 
social. J vimos que o adolescente funciona por projees macias, portanto todos os conflitos de construo 
do corpo e da identidade que est elaborando so depositados por projeo nos questionamentos sociais, O 
corpo que o angustia  trabalhado na ordem social, sentido como incerto e assustador. As reconstrues e 
definies que cobra do grupo so as mesmas reconstrues e definies que pessoalmente busca na 
organizao de sua identidade, 
A microssociedade do adolescente  ainda seu grupo familiar. A ambivalncia dual, ou seja, a vivncia dos 
conflitos de escolha ressonando nas relaes pais-filhos, criar um campo de batalha domstico, onde cada 
qual tender a se aferrar em suas prprias posies, tentando imp-las ao outro. Estes combates, deslocados 
para a relao com a sociedade, suportados pela radicalizao de postura que caracteriza o momento, levaro 
o adolescente a ver somente seus pontos de vista, a lutar para imp-Ios e a fantasiar-se de guerreiro da 
reconstruo e da normalizao social. Guerreiro que trava suas inconscientes batalhas internas, desenhando-
as nas telas da ordem social. Seu Superego, rgido e de certa forma cruel nas lutas que trava contra os valores 
parciais de infncia, notadamente na luta contra o incesto que  retomada, projeta-se tambm numa estrutura 
social sentida como cruel e restritiva. Se sofre a perda da proteao do que definimos sob o rtulo pais da 
infncia, cobra protetiva
43 

mente que a sociedade lhe propicie as mesmas protees e cuidados que recebera em casa quando criana. As 
frustraes, os combates e as tentativas de conquistas so naturais. 
Estas temticas so elaboradas internamente e nas relaes da fantasia familiar. Mas no devemos nos 
esquecer de que a sociedade, em geral, tambm possui certa estrutura filicida. Estudamos estes aspectos no 
volume 3 desta coleo, quando examinamos as caractersticas evolutivas do complexo de Edipo na ordem 
social. Toda gerao que est estabelecida tende a limitar o acesso ao poder da gerao que se desenvolve. O 
vestibular, com suas caractersticas castradoras,  um dos resqucios sociais dos rituais de iniciao, da 
limitao do acesso dos jovens ao poder. Estas restiies reais avivaro a chama do conflito. Knobel cita 
Suilivan ao expor que, como regra geral, a conquista social que o adolescente capaz pode realizar  construda 
muito mais sobre a obedincia sistemtica de regras comerciais e industriais, muitas vezes medocres, do que 
sobre o desenvolvimento de seu potencial. 
Voltemos ao termo sndrome normal. As reaes vividas pelo adolescente se sintomatizaro em posturas 
revolucionrias, em atitudes francamente negativistas e de oposio e, no raro, passaro por momentos de 
verdadeira atuao psicoptica. Esta sintomatologia, patolgica no adulto, pode ser considerada normal e 
transitria no adolescente. 
A concluso de Knobel  que, ao conseguir elaborar bem suas 
perdas, perdas estas referidas ao deixar o rol da infncia e buscar 
a reconstruo no rol de adultos, o adolescente poder entrar para a 
vivncia dos fracassos e conquistas reais, condies bsicas para sua 
adaptao ao grupo social, sem perder as energias motivadoras para 
a permanente reconstruo de uma ordem social melhor. 
1.2.5.8 Contradies sucessivas em todas as manifestaes da conduta 
Este item e os seguintes sero expostos sucintamente, uma vez que a superdeterminao da conduta humana 
fez com que, nos itens anteriores, as estruturas de base da problemtica adolescente j tenham sido discutidas. 
A conduta adolescente est dominada pela ao, ou melhor, num sentido psicanaltico, diremos que est 
dominada pela atuao. E como se o pensamento primrio tivesse antes que ser convertido em ao, para que 
o secundrio pudesse test-lo e adapt-lo s provas de realidade. Isto significa que, a cada desejo, a tentativa 
em geral mgica e fantasiada de satisfaz-lo surge como ao em um primeiro momento. S na adolescncia 
final  que, su peradas as angstias de base, haver a necessria elaborao entre o desejo e sua adequao ao 
rol social. 
O adolescente se caracterizar ento como algum cujas condutas sero freqentemente contraditrias. Ter, 
em geral, dificuldades em perceber as prprias contradies, e isto ser bem sentido em suas tentativas de 
mostrar-se coerente. Mas todo adolescente normal  contraditrio. O adolescente rgido e precocemente 
definido  mentalmente enfermo. 
1.2.5.9 Separao progressiva dos pais 
O grau de angstia que o adolescente apresentar na progressiva sada de casa est relacionado, para Knobel, 
com o montante de angstia vivenciado na elaborao da fase genital prvia. Se a figura dos pais est bem 
definida e se a imagem do relacionamento homem- mulher (fantasia de cena primria)  amorosa e 
gratificante, a evoluo da sexualidade, a busca do parceiro heterossexual e a entrada no rol adulto sero 
facilitadas. Freqentemente a exacerbao do conflito ser indicativa no s da fixao do adolescente em 
angstias anteriores, como da no-resoluo, em si, dos prprios conflitos dos pais. Pais que no resolveram 
seus prprios conflitos negaro o crescimento dos filhos, passando a ser vivenciados com acentuadas 
caractersticas persecutrias. 
Esta separao progressiva dos pais ser intermediada pela ligao a dolos idealizados, em geral artistas, 
atletas e outros heris valorizados pela cultura especfica. Tambm as figuras negativas, os viles nacionais, 
participaro desta progressiva separao, onde a normal dissociao esquizoparanide do adolescente amar e 
combater os representantes simblicos dos pais bons e maus que est elaborando. 
1.2.5.10 Constantes flutuaes do humor e do estado de nimo 
De maneira geral o adolescente  sujeito a microcrises manaco-depressivas. Knobel acentua que os estados 
de luto e depresso so tpicos da elaborao da adolescncia. A defesa contra a depresso  a organizao 
manaca. O adolescente, dentro da labilidade emocional desta etapa, alternar momentos de recolhimento 
quase que autistas com fantasias mgicas de alegria e realizao. 
45 
